domingo, 23 de agosto de 2009

2 Crítica: Dragonball Evolution

Por Mateus Souza






Dragonball Evolution
(Dragonball Evolution, 2009)

Mais uma adaptação de Quadrinhos chega às salas de cinema, dessa vez, porém, não é uma HQ americana, é um mangá, as histórias em quadrinhos do Japão. Apesar da origem nipônica de Dragon Ball – que teve seu nome mudado para Dragonball, no filme – , a produção é ocidental, e, avaliando o histórico de produções orientais reproduzidas sob a óptica ociental , esse aspecto se torna assustador.

Dragon Ball é uma famosa série de mangás, criada po Akira Toriyama, lançada entre 1984, em 42 volumes. De enorme sucesso no Japão e no mundo, a saga foi transformada em anime – animações japonesas – e repetiu o sucesso nas telas. Repleto de elementos fantásticos, com forte influência dos mitos japoneses e chineses, o mundo de Dragon Ball é mágico. A obra de Akira Toriyama deve, acima de tudo, ser respeitada por tudo que representou e representa. E foi justamente esse respeito que faltou por parte dos produtores do filme.

Nos mangás, Goku é um garoto com rabo de macaco que fora achado na Terra por um velho senhor, que o criou e foi transformando aquele rude garoto em uma pessoa melhor, entretanto, acidentalmente Goku acaba matando seu avô adotivo. É aí que ele conhece Bulma, uma linda garota, que conta-lhe a respeito das Dragon Balls, esferas mágicas, que, reunidas, libertam um dragão capaz de realizar um desejo. Os dois saem a procura de tais esferas, participando, no caminho, de grandes aventuras.

O filme, no entanto, esquece toda a mitologia de Dragon Ball, esquece sua história original, que, sem dúvida sofreria alterações na passagem às telas de cinema, mas, se houvesse respeito, mantendo sua essência, suas características centrais, mantendo aquela magia e inocência que tornou Goku e seus amigos sucesso absoluto. Isso, porém não foi feito, e basta analisar a sinopse presente na novelização do roteiro para concluir que o resultado seria bem distante da obra original: "Goku pensava ser um estudante normal de colegial, até que descobriu possuir dons de artes marciais com todos os tipos de poderes malucos. Agora ele e seu novo grupo de jovens guerreiros estão numa jornada para achar as esferas antes que ela caiam em mãos erradas. Mas elas talvez já estejam! Goku deve combater o malvado e lunático Piccolo com todo seu poder para salvar o planeta Terra.".

Independentemente de ser uma péssima adaptação, o filme é ruim. O roteiro, escrito por Ben Ramsey é uma piada, a maneira como a história acontece é corrida e superficial, não temos tempos de conhecer os personagens e muito menos suas aspirações, alguns, de tão superficiais, chegam a ser inúteis à trama – é o caso de Yancha. Algumas informações assaz necessárias são ignoradas, a meneira como o vilão Lorde Piccolo – um dos mais ridículos do filme – foge de seu aprisionamento mágico é explicada com um “de alguma forma que eu não sei explicar”, vindo do Mestre Roshi, que, apesar de interpretado pelo talentoso Yun-Fat Chow, é um dos personagens que mais deixa a desejar.

Icônico na série, Mestre Roshi tem sua essência cruelmente deturpada, aquele ar de “velho tarado” é reduzido a apenas duas rápidas cenas. Justin Chatwin – o Goku – não tem carisma algum, característica tão forte no garoto com rabo de macaco, e fracassa nas cenas um pouco mais dramáticas. Se algum elogio pode ser feito ao elenco, esse vai às garotas. Emmy Rossum – a Bulma – e a linda Jamie Chung, intérprete de Chi Chi, o par romântico de Goku, apesar de prejudicadas pelo roteiro – assim como todo o elenco - , parecem bastante dedicadas, empolgadas com o filme.

O diretor James Wong faz de Dragonball Evolution um trabalho mais desastroso que o seu O Confronto, que, ao menos, possuía lutas interessantes. As de Dragonball, porém, são limitadíssimas, com efeitos pobres e cafonas, típicos de seriados televisivos, não proporcionam a diversão que as lutas do mangá/anime proporcionavam.

Todos esses defeitos foram claramente refletidos na bilheteria do filme, em sua estréia, no Japão, não chegou nem a liderar, ficando atrás de uma outra adaptação de animê, Yatterman essa, porém, de produção nacional, e no restante do mundo o resultado não foi muito diferente.

Enfim, Dragonball Evolution, como adaptação, leva consigo pequenos elementos da obra original, os fãs devem encará-lo como um universo alternativo ao de Dragon Ball, assim como sugeriu o autor Akira Toriyama. Como filme, um completo desastre, corrido e sem espaço para um desenvolvimento aceitável. Como disse Érico Borgo, do site Omelete, “É o ocidente matando a cultura oriental.”

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

0 Crítica: O Contador de Histórias

O Contador de Histórias
(Contador de Histórias, O, 2009)







Por Eduardo Porto


Costumava dizer que as produções nacionais se davam melhor quando colocavam nas telas a realidade brasileira, porém, hoje me pego pensando que esse pensamento é algo exagerado, como posso afirmar tal coisa se esta mesma realidade difere tanto? Ora, qual é a realidade para os otimistas ou pessimistas? Quais destes são mesmos realistas? Quem pode dizer categoricamente a realidade em que vivemos? A continentalidade do Brasil nos impede de generalizar até mesmo entre as camadas sociais. Como poderíamos dizer qual foi a realidade de Roberto Carlos Ramos? Não gosto de repetir palavras, mas em O Contador de Histórias a palavra chave para descrever tal filme é esta: realidade.

Na década de 70, no auge da ditadura militar, milhares de crianças eram mandadas pelos seus pais, todos de famílias carentes, para a FEBEM na esperança de que lá eles tivessem educação, moradia e uma garantia de futuro melhor. No entanto a realidade que se via era bem diferente: surras, má-alimentação, displicência e até mesmo negligência com as crianças, tudo era empurrado com a barriga e em um descaso sem tamanho. Nem mesmo as pessoas que tinham boa vontade em cuidar das crianças podiam fazer alguma coisa, ficavam de mãos atadas e esperavam por uma alma boa cuidar delas.

E foi o que aconteceu com Roberto. Após fugir e ser recapturado mais de cem vezes das ruas, ele conhece Marguerith (Maria de Medeiros, siga seu destaque mais embaixo) e, mesmo após muita luta, ela acaba adotando-o. A partir daí o filme passa a ser sobre a superação do garoto ao enfrentar o preconceito racial (a belíssima cena do estádio de futebol ilustra isso), o anafalbetismo e também a volta as ruas. Roberto passa a evoluir como pessoa e ao mesmo passo em que essa história é bem contada, acompanhamos o seu crescimento de um forma diferente que outros filmes mostram. As cenas onde ele aprende a ler, contar e até aprender francês, são colocadas de uma forma que o espectador entenda bem o que está acontecendo, não em uma sequência de cenas com fundo musical alegre, no filme, o espectador cresce junto com Roberto.

Logicamente, num filme em que a vida nas ruas é mostrada existem cenas fortes, mas mesmo assim, a forma como o personagem principal vê as coisas (com uma imaginação bem fértil) ameniza o filme, torna ele agradável aos olhos, até mesmo engraçado. A narração também contribui, dá um toque de firmeza e veracidade aos fatos, apesar de que, poderia ser melhor utilizad, mesmo assim, não tira o brilho do filme, que é bem dirigido e bem feito, mesmo nos padrões nacionais.

Destaque: Ao contrário do meu colega Mateus, que preza bastante pelos aspectos técnicos do filme, aspectos estes que confesso não saber analisar com a mesma ótica, prezo muito pelo nível de atuação dos personagens. E neste filme, Maria de Medeiros, atriz portuguesa, tem uma atuação simplesmente soberba. Sotaque francês bastante convincente, uma mulher afável, que tenta ser durona, viciada em cigarros, o que demonstra sua insegurança, além de ter um desejo compulsivo em registrar tudo no seu gravador. Uma cena que também merece bastante destaque, é a que ela está junto com Roberto no estádio de futebol, a emoção e o entrosamento junto ao menino no banheiro masculino, fazem a cena ser bastante emotiva e ao mesmo tempo engraçada, ela faz Roberto não ter mais medo dos policiais e o mesmo se mostra verdadeiramente feliz por isso.

O filme em si é uma lição de vida e merece todos os aplausos para cada cena. Logicamente não é um filme perfeito, mas um a história bem contada.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

4 Crítica: A Vila

Por Mateus Souza







A Vila
(Village, The, 2004)

Após o grande sucesso de O Sexto Sentido, as pessoas começaram a esperar muito do trabalho de M. Night Shyamalan. E por essa grande expectativa, qualquer erro cometido pelo cineasta, por menor que seja, transforma-se em uma grande falha. Seu filme A Vila, lançado em 2004, assim como todos os outros após O Sexto Sentido, sofre desse mal.

A história de A Vila – The Village, no original – se passa em uma pequena vila, aparentemente do século XIX, longe de tudo e de todos, sem contato algum com as cidades. Em volta dessa vila existe uma grande floresta habitada por criaturas desconhecidas que dividem um tipo de pacto com os moradores da Vila: ninguém invade o território de ninguém. Assim, os habitantes da vila não devem jamais ultrapassar os limites da floresta, não saindo, assim, da vila, para que tais criaturas não a invadam.

Como já é típico dos filmes do indiano, o mistério é o tema central. É a partir dele que todo o roteiro se desenvolve, é usando tal mistério que Shyamalan consegue, mais uma vez, de forma belíssima e emocionante passar a sua mensagem – que, nesse filme, pode ser resumida à cena na qual o personagem de Willian Hurt revela aos anciões que contou o segredo da vila à sua filha.

A direção do indiano é extremamente competente. É incrível como Shyamalan consegue, em meio a toda aquela atmosfera de medo e tensão – coisa que ele sabe criar como poucos – uma cena tão linda como a do personagem de Joaquin Phoenix declarando-se para o da quase estreante Bryce Dallas Howard, na varanda da casa.

E é Bryce Dallas Howard – filha do diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante, Código da Vince) – que se destaca dentre todas as grandes estrelas presentes no elenco, composto por atores como os já citados Willian Hurt e Joaquin Phoenix e Adrien Brody, que vive um doente mental.

A Atriz vive a cega Ivy Walker, personagem central e mais importante da trama. O irônico é que Bryce Dallas não foi a primeira escolha para o papel. Quem viveria a personagem seria Kirsten Dunst, que a preteriu para atuar em outro filme.

Quem fotografa o filme é Roger Deakins – de filmes como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e Onde os Fracos Não Têm Vez, ambos indicados ao Oscar pela sua fotografia. No filme, a cor amarela e vermelha tem grande importância, e Deakins, ao revestir a vila em um tom ocre e frio, consegue criar o impacto necessário, quando o vermelho ou o amarelo entram em cena.

Outros aspectos que merecem destaque são a direção de arte e a trilha sonora. A primeira passa com credibilidade a imagem de uma vila do século XIX, e essa credibilidade é de suma importância para a “grande surpresa” do filme. E a trilha sonora – composta basicamente por violinos – realça ainda mais a teor de mistério e tensão que envolve o filme do começo ao fim.

Muito foi falado a respeito da grande capacidade e senso de direção da personagem de Bryce Dallas, que é cega. É verdade que Shyamalan exagera um pouco nesse sentido – como quando Ivy joga um dos seres da floresta em um buraco –, mas nada que chegue a acabar com o filme, como foi dito por alguns.

O roteiro, ao contrário que dizem, tem apenas um relevante furo. Na questão dos animais mortos na vila, Shyamalan termina o filme sem nos dar uma resposta objetiva para essa questão. A impressão que se tem é que a resposta nos foi dada, mas Shyamalan esse não se esforçou nem um pouco para deixá-la clara a ponto de podermos confirmar as especulações. Esse problema, porém, é engolido pelas incríveis qualidades do filme, não chegando a comprometê-lo de forma maior.

A Vila é mais um excelente filme de M. Night Shyamalan que sofre pelas grandes expectativas que giram em torno de seu diretor, que apesar de alguns números indicarem isso, não faz filmes para o grande público. Para o bem do diretor, com o passar do tempo e o conseqüente distanciamento de O Sexto Sentido, a expectativa em torno de seus trabalhos vai, paulatinamente, diminuir.