terça-feira, 4 de agosto de 2009

4 Crítica: A Vila

Por Mateus Souza







A Vila
(Village, The, 2004)

Após o grande sucesso de O Sexto Sentido, as pessoas começaram a esperar muito do trabalho de M. Night Shyamalan. E por essa grande expectativa, qualquer erro cometido pelo cineasta, por menor que seja, transforma-se em uma grande falha. Seu filme A Vila, lançado em 2004, assim como todos os outros após O Sexto Sentido, sofre desse mal.

A história de A Vila – The Village, no original – se passa em uma pequena vila, aparentemente do século XIX, longe de tudo e de todos, sem contato algum com as cidades. Em volta dessa vila existe uma grande floresta habitada por criaturas desconhecidas que dividem um tipo de pacto com os moradores da Vila: ninguém invade o território de ninguém. Assim, os habitantes da vila não devem jamais ultrapassar os limites da floresta, não saindo, assim, da vila, para que tais criaturas não a invadam.

Como já é típico dos filmes do indiano, o mistério é o tema central. É a partir dele que todo o roteiro se desenvolve, é usando tal mistério que Shyamalan consegue, mais uma vez, de forma belíssima e emocionante passar a sua mensagem – que, nesse filme, pode ser resumida à cena na qual o personagem de Willian Hurt revela aos anciões que contou o segredo da vila à sua filha.

A direção do indiano é extremamente competente. É incrível como Shyamalan consegue, em meio a toda aquela atmosfera de medo e tensão – coisa que ele sabe criar como poucos – uma cena tão linda como a do personagem de Joaquin Phoenix declarando-se para o da quase estreante Bryce Dallas Howard, na varanda da casa.

E é Bryce Dallas Howard – filha do diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante, Código da Vince) – que se destaca dentre todas as grandes estrelas presentes no elenco, composto por atores como os já citados Willian Hurt e Joaquin Phoenix e Adrien Brody, que vive um doente mental.

A Atriz vive a cega Ivy Walker, personagem central e mais importante da trama. O irônico é que Bryce Dallas não foi a primeira escolha para o papel. Quem viveria a personagem seria Kirsten Dunst, que a preteriu para atuar em outro filme.

Quem fotografa o filme é Roger Deakins – de filmes como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e Onde os Fracos Não Têm Vez, ambos indicados ao Oscar pela sua fotografia. No filme, a cor amarela e vermelha tem grande importância, e Deakins, ao revestir a vila em um tom ocre e frio, consegue criar o impacto necessário, quando o vermelho ou o amarelo entram em cena.

Outros aspectos que merecem destaque são a direção de arte e a trilha sonora. A primeira passa com credibilidade a imagem de uma vila do século XIX, e essa credibilidade é de suma importância para a “grande surpresa” do filme. E a trilha sonora – composta basicamente por violinos – realça ainda mais a teor de mistério e tensão que envolve o filme do começo ao fim.

Muito foi falado a respeito da grande capacidade e senso de direção da personagem de Bryce Dallas, que é cega. É verdade que Shyamalan exagera um pouco nesse sentido – como quando Ivy joga um dos seres da floresta em um buraco –, mas nada que chegue a acabar com o filme, como foi dito por alguns.

O roteiro, ao contrário que dizem, tem apenas um relevante furo. Na questão dos animais mortos na vila, Shyamalan termina o filme sem nos dar uma resposta objetiva para essa questão. A impressão que se tem é que a resposta nos foi dada, mas Shyamalan esse não se esforçou nem um pouco para deixá-la clara a ponto de podermos confirmar as especulações. Esse problema, porém, é engolido pelas incríveis qualidades do filme, não chegando a comprometê-lo de forma maior.

A Vila é mais um excelente filme de M. Night Shyamalan que sofre pelas grandes expectativas que giram em torno de seu diretor, que apesar de alguns números indicarem isso, não faz filmes para o grande público. Para o bem do diretor, com o passar do tempo e o conseqüente distanciamento de O Sexto Sentido, a expectativa em torno de seus trabalhos vai, paulatinamente, diminuir.

4 comentários:

Thales disse...

Eu gosto praticamente de todos os trabalhos do Shyamalan, o problema é que ele sofre o grande "trauma" dos grandes cineastas modernos que com sua primeira obra alcançou um patamar de grande diretor, ao invés dessa imagem ser construida aos poucos.
A questão é que o diretor/autor ja definira seu estilo narrativo, mas a critica simplesmente chama de uma cópia ou afunda o filme por ser algo totalmente diferente do esperado daquele diretor, obviamente mantando a forma narrativa do filme concreta.
Outros dois grandes cineastas, em minha opinião claro, que sofrem desse mal é o Quentin Tarantino, cujo kill bill não foi reconhecido como uma mistura criativa de filmes do velho oeste com traços de filmes orientais, e Roberto Benine, cujo seu ultimo trabalho O tigre a neve foi injustamente comparado com A vida é bela e chamado de mera cópia, mas o unico traço em comum é a forma narrativa da historia se utilizando da comédia para contar um drama.

Mateus, O Indolente disse...

Concordo com o que você disse Thales. E em relação aos outros dois cineastas, também acho que Kill Bill não foi reconhecido como deveria, já o do Benini, eu não tive a oportunidade de assistir.

=]

Thales disse...

Ele tem pra alugar na Distrivideo, espero que procure. O unico problema é que o filme alem de ser bem underground as pessoas continuam achando que é um filme chinês de kung fu. "Tem um tigre no meio, é chinês"

Mateus Selle Denardin disse...

Acho um dos melhores do diretor, com Shyamalan investindo pesadamente na técnica arrebatadora, começando pela sua própria condução da trama, mas ainda encantando com fotografia, direção de arte e trilha sonora (só essa indicada ao Oscar, uma pena). Acho injustiça chamá-lo de desastre como muitos o fizeram à época. Tem inúmeros méritos e, para mim, é suficiente para relevar qualquer falha que ele apresente, como você também mencionou.

Postar um comentário

O Cinema para Desocupados agradece pelos comentários!

Sempre que necessário os responderemos.