segunda-feira, 17 de agosto de 2009

0 Crítica: O Contador de Histórias

O Contador de Histórias
(Contador de Histórias, O, 2009)







Por Eduardo Porto


Costumava dizer que as produções nacionais se davam melhor quando colocavam nas telas a realidade brasileira, porém, hoje me pego pensando que esse pensamento é algo exagerado, como posso afirmar tal coisa se esta mesma realidade difere tanto? Ora, qual é a realidade para os otimistas ou pessimistas? Quais destes são mesmos realistas? Quem pode dizer categoricamente a realidade em que vivemos? A continentalidade do Brasil nos impede de generalizar até mesmo entre as camadas sociais. Como poderíamos dizer qual foi a realidade de Roberto Carlos Ramos? Não gosto de repetir palavras, mas em O Contador de Histórias a palavra chave para descrever tal filme é esta: realidade.

Na década de 70, no auge da ditadura militar, milhares de crianças eram mandadas pelos seus pais, todos de famílias carentes, para a FEBEM na esperança de que lá eles tivessem educação, moradia e uma garantia de futuro melhor. No entanto a realidade que se via era bem diferente: surras, má-alimentação, displicência e até mesmo negligência com as crianças, tudo era empurrado com a barriga e em um descaso sem tamanho. Nem mesmo as pessoas que tinham boa vontade em cuidar das crianças podiam fazer alguma coisa, ficavam de mãos atadas e esperavam por uma alma boa cuidar delas.

E foi o que aconteceu com Roberto. Após fugir e ser recapturado mais de cem vezes das ruas, ele conhece Marguerith (Maria de Medeiros, siga seu destaque mais embaixo) e, mesmo após muita luta, ela acaba adotando-o. A partir daí o filme passa a ser sobre a superação do garoto ao enfrentar o preconceito racial (a belíssima cena do estádio de futebol ilustra isso), o anafalbetismo e também a volta as ruas. Roberto passa a evoluir como pessoa e ao mesmo passo em que essa história é bem contada, acompanhamos o seu crescimento de um forma diferente que outros filmes mostram. As cenas onde ele aprende a ler, contar e até aprender francês, são colocadas de uma forma que o espectador entenda bem o que está acontecendo, não em uma sequência de cenas com fundo musical alegre, no filme, o espectador cresce junto com Roberto.

Logicamente, num filme em que a vida nas ruas é mostrada existem cenas fortes, mas mesmo assim, a forma como o personagem principal vê as coisas (com uma imaginação bem fértil) ameniza o filme, torna ele agradável aos olhos, até mesmo engraçado. A narração também contribui, dá um toque de firmeza e veracidade aos fatos, apesar de que, poderia ser melhor utilizad, mesmo assim, não tira o brilho do filme, que é bem dirigido e bem feito, mesmo nos padrões nacionais.

Destaque: Ao contrário do meu colega Mateus, que preza bastante pelos aspectos técnicos do filme, aspectos estes que confesso não saber analisar com a mesma ótica, prezo muito pelo nível de atuação dos personagens. E neste filme, Maria de Medeiros, atriz portuguesa, tem uma atuação simplesmente soberba. Sotaque francês bastante convincente, uma mulher afável, que tenta ser durona, viciada em cigarros, o que demonstra sua insegurança, além de ter um desejo compulsivo em registrar tudo no seu gravador. Uma cena que também merece bastante destaque, é a que ela está junto com Roberto no estádio de futebol, a emoção e o entrosamento junto ao menino no banheiro masculino, fazem a cena ser bastante emotiva e ao mesmo tempo engraçada, ela faz Roberto não ter mais medo dos policiais e o mesmo se mostra verdadeiramente feliz por isso.

O filme em si é uma lição de vida e merece todos os aplausos para cada cena. Logicamente não é um filme perfeito, mas um a história bem contada.

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