sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

7 Crítica: O Grande Truque

4/5
The Prestige
EUA, UK, 2006 - 129 min.
Diretor:
Christopher Nolan
Roteiro:
Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Elenco: 
Hugh Jackman, Christian Bale,  Michael Caine


Um truque de mágica muito bem executado

Christopher Nolan, atualmente, é “O Cara” em Hollywood. O diretor, responsável pela revitalização do Batman nos cinemas, emplaca um sucesso atrás do outro. Seu último filme, A Origem (leia a crítica aqui),  foi a quarta maior bilheteria do ano (faturou aproximadamente 825,4 milhões de dólares). Isso sem falar que é tido como nome certo entre os futuros indicados ao Oscar.

Em 2006, entre os dois filmes do Homem-Morcego, Nolan lançou O Grande Truque, que pode não ser Cult como Amnésia (2000) nem  um autêntico blockbuster como Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), mas é um de seus melhores  filmes.

A história, passada  na Londres do final do século XIX e  início do século XX,  mostra-nos dois mágicos, Alfred Borden (Christian Bale, o Batman) e Robert Angier (Hugh Jackman, o Wolverine). Os dois ilusionistas, inicialmente amigos, desenvolvem entre si uma rivalidade exacerbada, que evolui ao ponto de levá-los a uma obsessiva e inacabável disputa para ver quem é o melhor.

No elenco, além de Bale e Jackman, estão Michael Caine (que viria a se tornar figura freqüente nos filmes do diretor),  Rebecca HallScarlett Johansson (dupla de Vicky Cristina Barcelona) - esta última em um papel pequeno e desinteressante. O  camaleônico David Bowie e o "Gollum" Andy Serkis  fazem uma pequena, mas importante, participação, como o cientista Nikola Tesla e seu empregado Alley, respectivamente. Tesla, para os menos entendidos, de fato existiu e foi um importante cientista do campo da eletricidade.

O roteiro dos irmãos Nolan, baseado no romance de Christopher Priest, apresenta uma história não-linear, com diferentes linhas narrativas que se cruzam e que, de hora em hora, mudam a nossa opinião a respeito de quem é o vilão e quem é o mocinho  da história.

Se em A Origem temos sonhos dentro de sonhos, aqui  o texto traz  narrativas dentro de narrativas. São três no total, uma nascendo de dentro da outra e alternando-se para contar a história. Escrito parece complicado, mas, na tela, não é.  Mérito  da coesão do texto dos irmãos que, aliado a uma excelente montagem, não deixa o público se perder, construindo uma narrativa de fácil compreensão, apesar da sua estrutura complexa – virtude essa não presente em A Origem.

No início do filme, aprendemos que um truque de mágica é composto por três momentos distintos. A Promessa, na qual o mágico apresenta um objeto comum à platéia. A Virada, onde algo de extraordinário é feito sobre o objeto antes comum e, por fim, o Grande Truque, que é o momento principal da mágica, no qual ela encontra o seu desfecho, levando a platéia ao delírio. 

O Grande Truque é como uma dessas mágicas, e Nolan, o mágico em questão, executa  cada passo de forma tão envolvente e hábil  que é preciso um final típico de Hollywood (daqueles explicadinhos) para que entendamos a  sua grandiosidade.  

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

6 Crítica: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

3/5
The Imaginarium of  Doctor Parnassus
França, Canadá, UK, 2009 - 122 min.
Diretor: 
Terry Gilliam
Roteiro:
Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco:
Heath Ledger, Christopher Plummer, Tom Waits, Andrew Garfield

O mundo imaginário de Terry Gillian

O norte-americano Terry Gilliam, homem por trás de clássicos como Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975) e Brazil - Filme (1985), é conhecido pelas imensas dificuldades que enfrenta para finalizar seus projetos – isso quando consegue finalizá-los.

Com seu mais recente filme, O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (2009), não poderia ser diferente. Mais ou menos na metade das filmagens, Gilliam  perdeu um de seus principais atores, Heath Ledger - vítima do uso abusivo de medicamentos.

Mas, com a imaginação que lhe é peculiar, Gilliam encontrou não só uma maneira de salvar o filme como, também, de homenagear o falecido amigo. Para isso, chamou Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrell para substituir o ator nas cenas que ainda não haviam sido filmadas. Como isso foi possível? Ora, estamos falando de um filme de Terry Gillian...

Na história, conhecemos dr. Parnassus (Christopher Plummer), um homem de mais de dois mil anos que viaja mundo afora com seu pequeno circo itinerante, do qual fazem parte seu fiel, e pequeno, parceiro Percy (Verne Troyer), o jovem Anton (Andrew Garfield, de A Rede Social) e a bela Valentina (Lily Cole),  filha de Parnassus. O velho senhor tem um longo histórico de apostas com  Nick (Tom Waits), o Diabo, que está de volta para cobrar um de seus prêmios: Valentina, que logo completará 16 anos.

Angustiado com a iminente perda de sua filha para o tinhoso, Parnassus encontra em Tony (Ledger, Depp, Law e Farrel), um moribundo desmemoriado que junta-se à trupe, uma esperança de salvar Valentina, já que, com seu aparecimento, é feita uma nova proposta pelo Diabo: aquele que mais rápido conseguir 5 almas, fica com a moça.

É no imaginarium, espelho mágico de Parnassus, que acontecem as disputas pelas almas. O espelho cria um mundo novo de acordo com a imaginação de quem o adentra – possibilitando até que alguém se transforme em quatro. 

É nele que o filme ganha um ar “terrygilliano”. A londres suja e úmida do mundo real dá lugar a um lugar cheio de criaturas e situações surreais que facilmente nos remetem às animações criadas pelo diretor em sua época de Monty Python. 

Mas não é esse o principal do filme. Na verdade, o tom onírico é só uma conseqüência (e das boas) da presença de Terry Gilliam por trás das câmeras. As principais virtudes de O Mundo Imaginário... são a história e os personagens (todos bem construídos e interpretados).

O último filme de Heath Ledger tende a ser apreciado por um público restrito, afinal, Terry Gilliam será um eterno cult. Seus trabalhos são como o imaginarium do filme, e nem todos estão preparados para adentrar a  sua mente insana.

sábado, 18 de dezembro de 2010

4 Crítica: Skyline – A Invasão

2/5
Skyline
EUA, 2010, 94 min.
Direção:
Colin Strause, Greg Strause
Roteiro:
Joshua Cordes, Liam O'Donnel
Elenco:
Donald Faison, Eric Balfour, David Zayas


Um filme B com efeitos especiais de filme A

Hoje em dia, é possível produzir um filme com efeitos especiais de ponta sem que rios de dinheiro sejam gastos. Distrito 9 é um bom exemplo disso: Na ficção científica produzida por Peter Jackson foram gastos “meros” 30 milhões de dólares  - quantia baixíssima para uma produção do gênero. 

Com essa tendência de barateamento técnico, é natural que filmes de segunda linha passem a apresentar bons efeitos especiais, o que em parte, pode tirar sua essência de filme B. Mas não é isso o que acontece em Skyline – A Invasão (cujo orçamento foi apenas de 10 milhões de dólares), que, no começo, até disfarça, mas logo  mostra sua real natureza trash – e é ai que o filme fica divertido.

Na história, Jarrod (Eric Balfour, o Eddy de The OC) e sua namorada Elaine (Scottie Thompson) vão passar um final de semana em Los Angeles,  na cobertura do seu  milionário amigo Terry (Donald Faison, da série Scrubs). Depois da festa, os amigos são acordados por estranhas luzes  vindas de fora das janelas, e que atraem , misteriosamente, aqueles que as olham diretamente. Daí para descobrir que se trata de uma invasão alienígena é um pulo.

Os irmãos Colin Strause, Greg Strause (os culpados por Aliens Vs. Predador: Requiem) não escondem a preferência dada ao aspecto técnico em detrimento dos demais. Só assim para escalarem um grupo de atores tão ruins. Isso sem falar do roteiro extremamente superficial, que não  cria um mínimo de identificação entre os personagens e o público. Ou seja, um desastre.

No entanto, em determinado momento (na metade, aproximadamente) a natureza trash do filme, antes maquiada pelos efeitos de ponta, começa a aparecer. Personagens começam a desenvolver super-poderes (com direito a um espancamento de alien com placa de cimento); cérebros passam a ser devorados e pessoas, cuspidas do interior de aliens. Isso sem falar da cena final, que, com chave de ouro, sela  essa metamorfose trash – tal qual aquela sofrida pelo personagem de Jeff Goldblum, em A Mosca.

Essa transformação não salva Skyline – A Invasão, que continua sendo um péssimo filme, mas, mesmo que involuntariamente, o torna um pouco mais divertido. 

Para os irmãos Strause , Skyline representou  não só mais um filme ruim no currículo, mas uma possível ação judicial tendo a Sony Pictures como autora. Já que a empresa de efeitos especiais da qual os dois fazem parte, a Hydraulx, está prestando serviços para a Sony em um filme nos mesmos moldes,  chamado Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles - o que pegou um pouco mal para os irmãos.

Deixando o aspecto jurídico de lado, Skyline – A Invasão, apesar de ruim, é capaz de entreter e, até mesmo, divertir, mesmo que faça isso involuntariamente. Um filme B, escondido entre alguns efeitos especiais, mas que, no fim das contas, não engana ninguém.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

4 Crítica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

3/5
You Will Meet a Tall Dark Stranger
EUA , 2010 - 98 minutos
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Gemma Jones, Naomi Watts, Josh Brolin, Anthony Hopkins, Antonio Banderas

Woody Allen e a insignificância da vida
  
Em seus últimos filmes, Woody Allen apresentou o que o crítico Marcelo Hessel chamou de crônicas comportamentais. São filmes singelos, focados nos dramas cotidianos, quase que banais, dos personagens, e que terminam com algum tipo de conclusão moral ou filosófica – sempre fornecidas pelo narrador, seja ele personagem ou não.

Foi assim em Vicky Cristina Barcelona, foi assim em Tudo Pode Dar Certo e é assim em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos – o mais fraco dos três.

Na história do novo filme, somos rapidamente apresentados a vários personagens, cada um deles com seus “pequenos” dramas pessoais. Alfie (Anthony Hopkins) já não agüenta mais viver com a esposa  Helena (Gemma Jones), que parece  não acompanhar o seu  estilo de vida jovial, e a troca pela jovem  Charmaine (Lucy Punch). Sally (Naomi Watts), filha de Alfie e Helena, também não vai bem em seu casamento com o escritor frustrado Roy (Josh Brolin), o que a faz investir na relação com Greg (Antonio Banderas), seu chefe e dono de uma galeria de Arte. Roy, por sua vez, vive com a angústia de não conseguir emplacar outro livro de sucesso e encontra na jovem Dia (Freida Pinto) um consolo.

Com tantos e diferentes personagens, Allen mostra que aquilo que está dizendo  acontece e se aplica, de fato, a todas as pessoas. O neurótico diretor ilustra seu pensamento com um trecho de Macbeth, famosa tragédia shakespeariana : “Fora! apaga-te, candeia transitória! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa”. 

Ou seja, não devemos nos preocupar tanto com os nossos problemas, afinal, a vida não significa muita coisa. E, no fim das contas, todos nós encontraremos o  estranho moreno e alto a que o título original se refere (piada perdida com a adaptação nacional).

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não é um trabalho melhor que os dois anteriores de Allen - Vicky Cristina Barcelona tem melhores personagens e Tudo Pode Dar Certo é bem mais divertido. No entanto, mantém a perspicácia típica dos trabalhos do cineasta. Os diálogos são ótimos e a mensagem, mais uma vez, passeia entre o otimismo e o pessimismo. Como seus últimos filmes, esse não irá marcar a extensa carreira do diretor, mas,  ainda assim, vale a pena assistir.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

3 Crítica: Scott Pilgrim Contra o Mundo

4/5
Scott Pilgrim versus the World
EUA, Inglaterra, Canadá , 2010 - 112 min.
Direção:
Edgar Wright
Roteiro:
Edgar Wright, Michael Bacall, Brian Lee O'Malley
Elenco:
Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Jason Schwartzman

 A linguagem pop elevada à potência máxima

Quando teve seu painel apresentado na principal sala do primeiro dia da Comic-Com 2010, conhecida como a maior feira nerd do ocidente, Scott Pilgrim Conta o Mundo (adaptação para o cinema da HQ de Bryan Lee O'Malley) empolgou todos os presentes, causando grande expectativa em relação à sua estréia.

No entanto, quando finalmente estreou, o filme que parecia um sucesso certo, foi um fracasso de público, não conseguindo nem mesmo pagar o seu custo. Uma pena, pois o filme do diretor Edgar Wright (o mesmo de Todo Mundo Quase Morto, 2004), além de extremamente divertido, apresenta uma maneira nova de adaptar para as telas os quadrinhos e os games.

Na história, Scott Pilgrim (Michael Cera, que mais uma vez interpreta a si mesmo, coisa que ninguém pode fazer melhor) é um roqueiro “pós-adolescente” de Toronto que se apaixona pela estadunidense Ramona Flowers ( Mary Elizabeth Winstead, de À Prova de Morte), mas, para que possa ficar com a garota de cabelos coloridos, Pilgrim terá de enfrentar seus Sete Maléficos Ex-Namorados, que são vividos por atores dentre os quais estão Jason Schwartzman (Três é Demais), Chris Evans (Quarteto Fantástico) e o ex-superman Brandon Routh.

O ritmo que Writght emprega ao filme é frenético. A edição é surtada: os diálogos, às vezes, começam antes mesmo da cena da qual fazem parte chegar – como na conversa entre Scott e sua namorada teenager (vivida por Ellen Wong) na loja de discos. A tela está sempre lotada de informações, sejam elas  placas com características dos personagens ou onomatopéias, no caso de alguém bater na porta ou o telefone tocar.

Writght domina muito bem a linguagem pop que se propõe a usar e a eleva à potência máxima – sendo justamente essa característica um dos principais fatores que levaram Scott Pilgrim Contra o Mundo fracassar nas bilheterias. 

Afinal, agradar às pessoas da Comic-Com com um filme nesses moldes é compreensível, levando em consideração que a maioria ali está familiarizada com todos os elementos loucamente maximizados por Wright, mas querer que o grande público compre a idéia de  inexplicáveis batalhas  épicas envolvendo super-poderes e personagens com mais de uma “vida” é forçar a  barra demais – apesar de eu adorar tudo isso no filme.

Scott Pillgrim é um filme corajoso, que inova ao criar uma estética visual, por incrível que pareça, nunca antes utilizada em adaptações de quadrinhos ou videogames. É um filme que funciona apenas para um grupo específico de pessoas, mas que faz isso de maneira grandiosa. 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

8 Exceções de Adam Sandler

Nem só de filmes ruins com Rob Schneider é composta a filmografia do ator

Semana passada, estreou por aqui Gente Grande - mais um dos filmes sem graça de Adam Sandler no qual ele interpreta a si mesmo. Esses filmes (que se tornam piores quando contam com a participação de Rob Schneider e roteiro do próprio Sandler) são a regra na carreira do comediante oriundo do Saturday Night Live.

Mas, como toda boa regra, essa também comporta exceções. São filmes nos quais Sandler sai do estereótipo moldado por ele mesmo, surpreendendo nem que seja só pela sua presença no filme.

É o caso de Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002) que pelo título e a participação de Sandler como personagem principal pode frustrar muita gente. O filme de Paul Thomas Anderson (Magnólia, Sangue Negro) não é o que parece, e é um dos mais estranhos já feitos no âmbito das comédias românticas (que trilha sonora é aquela?)

Nele, Sandler vive o problemático Barry (papel que lhe rendeu um Globo de Ouro), o irmão mais novo de sete irmãs, que, no que seria um dia comum, presencia um acidente de carro, tem um piano largado na frente de sua casa e conhece
Lena Leonard (Emily Watson), o amor de sua vida.

O filme conta com ótimos diálogos ("Eu amo tanto você que queria arrancar os seus olhos e chupá-los...") e situações non sense de altíssimo nível - como se a premissa já não fosse o bastante. Um bom e esquizito filme.

Em 2004, Adam fez
Espanglês (Spanglish), do vencedor do Oscar James L. Brooks, onde contracena com Paz Vega (Lúcia e o Sexo) e Téa Leoni (Dirigindo no Escuro). O filme é mais um daqueles que são vendidos por aqui como comédias românticas, mas, na realidade, não o são. Vale a pena ser conferido (nem que seja para admirar a beleza espanhola de Paz Vega).

Mas se em Embriagado de Amor e Espanglês Sandler mantinha a essência humorística, no drama Reine Sobre Mim (
Reign Over Me, 2007) ele sai um pouco desse caminho, não sendo nem mesmo o escape cômico do história, esse ficando a cargo do talentoso Don Cheadle.

Na trama, Sandler vive um pai de família que perdeu a mulher e as filhas no atentado terrorista de 11 de setembro. Don Cheadle vive o dentista Alan, amigo dos tempos de faculdade, que vai tentar salvar o personagem de Sandler do estado de choque em que se encontra desde fatídico dia.
O filme tira o foco da destruição material causada pelo atentado e o direciona para as consequências emocionais que o evento causou na família das vítimas.

Sandler não cai na caricatura - o que é notável diante do personagem que enfrenta - e emociona em muitos momentos (a cena em que seu personagem se desculpa e beija o rosto da mãe de sua falecida mulher, como diria Nasi, "não dá pra segurar").

Esses são três filmes que (somados ao recente Tá Rindo do Quê?) comprovam que Adam Sandler tem seus bons momentos como ator e pode sim fazer filmes interessantes. O estranho é entender o porquê de sua preferência pelas já sem graça comédias que o tornaram conhecido. 

domingo, 19 de setembro de 2010

6 Crítica: Amor à Distância

Going the Distance
Estados Unidos, 2010 - 102 min
Direção: 
Nanette Burstein
Roteiro:
Geoff LaTulippe
Elenco:
Drew Barrymore, Justin Long


Uma autêntica e, pasmem, boa comédia romântica

Para muitos, comédia romântica  é sinônimo de filme ruim. É difícil contra-argumentar esse tipo de pensamento, já que, todos os anos, inúmeras comédias românticas são lançadas seguindo uma fórmula pré-concebida, que esquece qualquer tipo de aspecto artístico para lembrar apenas de interesses comerciais. O público tem sua parcela de culpa: É ele quem lota as salas de cinemas para assistir aos "enlatados", sob o falso pretexto de diversão descompromissada.

Mas, vez ou outra, aparece alguém para mostrar que é possível produzir uma comédia romântica descompromissada, leve, que não faça feio nas bilheterias nem subestime a inteligência do espectador.

Recentemente, temos o exemplo de 500 Dias com Ela, que traz todos os elementos típicos das comédias românticas subvertidos dentro de uma gigantesca roupagem "indie". Mas Amor à Distância é um melhor exemplo de boa comédia romântica, pois não subverte ou cria nada. Trabalha com a mesma fórmula que tanto estamos acostumados a ver.

O filme, dirigido pela documentarista Nanette Burstein, trata de um tema muito em pauta e de fácil identificação hoje em dia: os relacionamentos à distânca (como o título já entrega...). Erin (Drew Barrymore) é uma aspirante a jornalista de São Francisco; Garret (Justin Long) um frustrado produtor musical de Nova York. Os dois desenvolveram um relacionamento enquanto ela estagiava em um jornal da cidade dele. Com o fim do estágio, a moça teve de voltar para a sua cidade e, descumprindo o que haviam combinado inicialmente, os dois decidem manter o relacionamento, mesmo morando em cidades diferentes.

Da estrutura narrativa aos personagens secundários (e Drew Barrymore também), tudo é bem típico das comédias românticas. Mas se é assim, o que faz de Amor à Distância um filme diferentes do "enlatados" citados no começo do texto?

A simples (mas valiosa) capacidade de navegar por um determinado gênero sem cair na banalidade. O roteirista Geoff LaTulippe utiliza cada um dos cânones das comédias românticas, só que de forma divertida e interessante, o que, na essência, eles são mesmo - desde que bem trabalhados. Aqui, não nos deparamos só com a vontade de agradar a um público fácil, tal intenção existe, é claro, mas somada à outra: a de fazer um bom filme.

Amor à Distância pode não ser o filme do ano, mas é mais um que colabora com a ideia de que diversão descompromissada não é diversão burra. E, em tempos como os de hoje , isso deve ser valorizado.
 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

9 Crítica: Chico Xavier


Chico Xavier
Brasil, 2010 - 125 min
Diretor:
Daniel Filho
Roteiro:
Marcos Bernstein
Elenco:
Nelson Xavier, Tony Ramos, Cássia Kiss


O filme merece o apelo que tem?


Antes de começar a tecer meus comentários acerca do filme, lembre-se que este é um blog de cinema e que não tem nenhum intuito de fazer apologia a nenhuma religião, todos os comentários serão baseados unicamente nos meus (humildes) conhecimentos sobre a sétima arte. Dito isto, comecemos.

A história de Chico Xavier é conhecida e admirada por grande parte dos brasileiros e até mesmo no mundo, não somente aos espíritas mas até mesmo aqueles que simpatizam com a figura do médium. Coube então ao diretor Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 1 e 2) colocar nas telas, junto ao roteiro de Marcos Bernstein, a trajetória da vida deste ser que, para os mais fervorosos foi um santo e para os mais céticos, no mínimo, uma pessoa diferente, intrigante. A direção de Daniel, conhecido por ser um diretor um tanto marqueteiro ou que dirige apenas filmes sem muito conteúdo, consegue colocar a película em nenhuma das duas categorias. De fato o filme cria um vínculo com quem o assiste, a história é contada com uma eficácia que poucos diretores nacionais possuem, não fica andando em círculos e é objetiva mesmo com pouco mais de duas horas de metragem. Por isso a mensagem chega ao público com tamanha facilidade e essa é uma das razões pelo filme ser bastante cultuado.

O começo do filme, no entanto, é um tanto pesado no tocante da atuação: há a clara impressão de pouca naturalidade por parte dos atores, somando isso a alguns defeitos técnicos, principalmente na parte do som (no começo achava que era um defeito na sala de cinema, depois ao ver em DVD confirmei) onde nem sempre o som corresponde ao que está sendo visto, faz o filme começar com uma péssima impressão. O diretor comete exageros nas primeiras seqüências, e são esses exageros que resultam nessa falta de naturalidade. Na comédia, Daniel Filho consegue explorar o máximo dos seus atores, no drama isso não acontece com tanta freqüência. Porém esses defeitos são remediados, os atores mostram firmeza e segurança nas suas performances ao decorrer do filme, destaque para Tony Ramos e Christiane Torloni que fazem o casal Orlando e Glória, eles têm seu filho assassinado e possuem certo medo da mediunidade. O casal forma a única história paralela à figura central do filme e transbordam em emoção na seqüência final. Os elementos ficcionais que são inseridos também mostram eficiência e contam com emoção as tantas histórias de famílias que foram amparadas por Chico.

O personagem de Chico, representado em três fases por três atores: Matheus Costa na infância, Ângelo Antônio na fase adulta e Nelson Xavier como idoso, merece uma análise a parte. A transposição temporal entre cada fase é feita com perfeição e o personagem evolui a cada transposição, não só no que corresponde a figura real de Chico Xavier, mas também aos atores. O que incomoda durante o filme é a visão paternalista, quase messiânica que se deu a ele, mesmo em momentos que desgastariam emocionalmente qualquer pessoa e com sensações ruins das mais diversas, Chico jamais perdia a serenidade, bondade e calma. É um tanto controverso analisar isso, eu não conheci Chico Xavier, mas será que ele era tão calmo, bondoso e paternalista assim que não haviam momentos de tristeza ou explosão? Isso tira a humanidade do personagem, deixa-o menos palpável.

Há também as mancadas: a cena do avião é, no mínimo, carregada de vergonha alheia. Não sei se pela comicidade da situação ou porque o ator André Dias não conseguiu entrar no espírito (e falo isso sem trocadilhos) do personagem Emmanuel. O fato é que a cena chega a ser constrangedora, mesmo com o próprio Chico falando dela durante os créditos.

Outro ponto bastante positivo é que ele trata o espiritismo com sobriedade e seriedade, sem fazer ‘firulas’ ou engrandecer a religião. Fascina, faz as pessoas ficarem curiosas, não pelo apelo mas sim pela história contada. O fato é que Daniel Filho consegue acertar mais do que errar, Chico Xavier é um bom filme, mas não é uma maravilha cinematográfica. Fica aqui o questionamento: será que mesmo sem o apelo religioso citado, Chico Xavier é um filme que merece todo esse apelo do público? A crítica é unânime: o filme tem seus pontos positivos, mas nem de longe é o melhor que o cinema nacional produziu. Acredito que o público, ao ver um filme principalmente de cunho religioso, devia livrar-se destes mesmos preceitos e ser mais crítico.

Nosso Lar, que vem como uma sequência de filmes sobre o médium (uma espécie de trilogia sobre Chico Xavier, que será sucedido por As Mulheres de Chico Xavier), também será analisado por mim em um futuro próximo, afinal também está cotado para ser um dos filmes candidatos ao Oscar.

sábado, 4 de setembro de 2010

9 Crítica: Encontros e Desencontros

5/5
Lost In Translation
Estados Unidos, 2003 - 105 min
Diretor:
Sofia Coppola
Roteiro:
Sofia Coppola
Elenco:
Bill Murray, Scarlett Johansson


"For relaxing times, make it Suntory time"

Quando, em 1990, Sofia Coppola apareceu como Mary Corleone na terceira parte de O Poderoso Chefão, a impressão que se teve foi que a moça só estava ali por causa do seu papai Francis. E, de fato, era isso mesmo. Até Framboesa de Ouro a moça recebeu. Atuar não era com ela, mas dirigir (e escrever) sim. Ela lançou essa suspeita com Virgens Suicidas (1999) – sua estréia na direção – e confirmou com Lost In Translation, seu trabalho seguinte, chamado de Encontros e Desencontros, por aqui.

No filme, Sofia conta a história de Bob Harris (Bill Murray, em seu melhor trabalho no cinema), um decadente ator em plena crise da meia-idade e Charlotte (Scarlett Johansson, linda e talentosa), uma jovem recém formada em Filosofia que ainda não sabe bem o que fazer.

Os dois estão hospedados no mesmo hotel em Tóquio. Ele para participar de alguns comerciais (“ao invés de estar atuando em alguma peça”, como mesmo diz), e ela acompanhando seu marido (Giovanni Ribisi), com quem casou a pouco tempo. Em comum: o fato de estarem perdidos na vida.

É a relação dos dois o ponto central do filme. Como um encontra no outro uma ligação, por mais passageira que seja, com o mundo, e Tóquio aparece como metáfora perfeita para o sentimento de “deslocamento” dos dois.

Do chuveiro mais baixo ao templo budista, o choque cultural é imenso – e engraçado. Não tem como não rir dos olhares incrédulos e cínicos que Murray faz com cada situação. Sofia acerta ao tratar com sutileza a diferença cultural. A capital japonesa não se transforma em uma caricatura. Ela só é... Diferente.

A relação de companheirismo criada entre o dois personagens centrais é bonita e delicada, algo que transcende o físico (só há um único beijo entre os dois no filme). E esse é um dos diferenciais do relacionamento: não vemos duas pessoas procurando um grande amor ou algo do tipo. São só duas pessoas solitárias que não querem se separar.

O filme foi bastante elogiado pela crítica e arrastou algumas indicações e prêmios importantes – como o de Melhor Roteiro Original do Oscar –, e hoje é Cult. Sofia Coppola, apesar de ter poucos filmes em seu currículo, já se mostra uma diretora madura. Seu novo filme, Somewhere – o quarto da carreira – é grande favorito na disputa do Festival de Veneza 2010. Enfim, ainda bem que ela desistiu de ser atriz.  

domingo, 29 de agosto de 2010

6 Crítica: Persépolis

 Persépolis
(Persepolis, 2007)

Roteiro: Marjane Satrapi (quadrinhos, romance, roteiro), Vincent Paronnaud (roteiro)
Direção: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve




Uma animação fantástica que toca e inspira a quem a assiste

Ao ver um filme de animação, acabamos por mudar os olhos de uma forma mais preconceituosa e por vezes até arrogante. Subestimamos o valor do cinema de animação como os mais novos olham com desdém ao cinema mudo, não conseguem vislumbrar que por trás de um filme de ‘desenho’, que demorou meses e as vezes até anos para ser feito, existe uma mensagem maior do que aquela que salta de cara aos olhos. Poderia citar um monte de filmes de animação que realmente elevam o cinema ao status de arte, mas eu acho que Persépolis é o exemplo perfeito, pois é daquelas obras que você jamais esquece. É como ver um quadro de Picasso e perceber que ele é singular pela forma que as tintas estão dispostas, é como ouvir Beethoven e sentir uma emoção e um prazer em cada nota, fechar os olhos e viajar pelo piano forte ou o violino suave. Persépolis não é o melhor filme do mundo, mas com certeza vai te marcar de uma forma singular.

A obra é o retrato animado dos quadrinhos lançados por Marjane Satrapi que conta sua trajetória em meio as guerras e revoluções que assolavam o Irã na década de 80. É a trajetória de uma menina que queria levar uma adolescência como gostaria que fosse. Porém vivia em uma sociedade em que as meninas tinham que cobrir sua cabeça dos pés as cabeças, não podiam namorar e nem utilizar coisas que lembrassem a cultura ocidental. Marjane só queria usar um tênis Nike, depilar as pernas e poder escutar Iron Maiden, e ela achava (com razão) que isso era ela querendo ser ela mesma e não sendo mais um daqueles robôs.

O pensamento de Marjane se externa no filme não pelas suas falas ou ações mas sim pelo jeito que ela retrata sua vida e o seu país no filme, como ele é quase todo em flashback a maior parte dele é em preto, branco e cinza, os funcionários do regime são todos homens barbudos e de fisionomia idêntica, os policiais, as freiras do internato, todos são retratados de uma forma semelhante pois para ela são como um bando de alienados que se vestem e se comportam da mesma maneira e que juram lutar por algo que os valha quando na verdade são paus mandados de um governo que busca para o povo uma falsa identidade. Seus pais, vendo que sua filha não cresceria decentemente ali mandam Marjane para a Áustria.

Lá ela conhece pessoas novas e tem seus maiores conflitos internos, conhece homens e se desilude com eles, dorme na rua, consome drogas e quando vê que aquilo não é para ela, decide voltar para o Irã. E lá se depara com uma situação ainda pior, 1 milhão de pessoas mortas nas revoluções, amigos em situação pior do que ela, o país em busca de identidade e que não deixa seus cidadãos irem em busca da sua, apoiados em uma moral religiosa que simplesmente não procede na maneira de tratar homens e mulheres em igualdade.

Persépolis te prende de uma forma indignante, não só porque você fica indignado com as injustiças e opressões, mas porque você se mostra solidário com a situação de Marjane durante o filme e por vezes até se identifica de forma pesada. De alguma forma ou de outra você se reconhece em determinada situação do filme, sabe o que ela passa. Persépolis é um filme que poderia retratar a vida de qualquer pessoa em qualquer país, independente das dificuldades que ela enfrenta. Cenas marcantes te fazem ir junto dela como a engraçadíssima cena em que ela canta Eye of the Tiger do Scorpions (mais engraçado é ela cantando naquele sotaque francês), quando ela desfigura o namorado que a traiu e ao falar com Deus quando é pequena e quando tenta se suicidar. Marjane é a personagem central e principal, porém existe uma figura central e a qual as ações de Marji estão direta ou indiretamente ligadas: sua avó materna. Ela é o fio condutor da linha de pensamento de Marji, ela ampara, corrige e mostra o caminho que a garota deve seguir. Por vezes ela pensa no que a avó faria ou diria, muito pela sua ligação. Essas coisas estão ainda mais presentes e marcantes quando ela lembra das coisas que a avó fazia, como quando ela dizia que colocava jasmins no sutiã e ficava na memória de Marjane toda vez que ela se despia e caíam as flores de jasmim dos seios. Quem teve infância com a avó ou foi intimamente ligado será profundamente tocado.

De um ponto de vista técnico a animação é completamente diferente dos desenhos americanos ou japoneses, a direção de animação fica por conta do francês Vincent Paronnaud e é singular na forma do traço e na forma de animar. É tão única que se o filme fosse feito por atores reais não seria tão bem retratado.

Persépolis é o filme que não precisa só estar na sua cabeça, mas também na sua estante.

domingo, 22 de agosto de 2010

15 Crítica: O Último Mestre do Ar

O Último Mestre do Ar
(Last Airbender, The, 2010)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone





Um filme de aventura/fantasia comum, só que com um foco diferente

Avatar: A Lenda de Aang, animação da Nickelodeon, ganhou uma adaptação em live action para os cinemas sob o comando de M. Night Shyamalan. O controverso diretor, acostumado a roteiros originais e tramas de mistério nas quais predominam o diálogo, trabalha aqui com material adaptado, muitos efeitos especiais e cenas de ação – sem falar de um público consumidor bem mais novo.

Mas Shyamalan, apesar do material pouco característico, consegue empregar o seu estilo ao filme. O misticismo e as questões interiores são supervalorizadas em detrimento da ação, o que pode decepcionar muita gente, inclusive fãs, mais acostumados e ávidos por um cinema mais espetaculoso. Em O Último Mestre do Ar (nome que o filme recebeu por causa do outro Avatar) tem ação, as cenas de lutas são interessantes (como no desenho), bem filmadas, mas não é isso que Shyamalan quer mostrar.

Ele quer mostrar o drama pessoal do garoto Aang. Ele é o Avatar, o único dentre todas as Nações que consegue manipular os quatro elementos e comunicar-se com os grandes espíritos. Tem para sim a missão de equilibrar a relação entre as quatro Nações existentes (a Tribo das Águas, o Reino da Terra, a Nação do Fogo e os Nômades do Ar). É uma trama profunda e dramática que, no desenho, ganha grande inserção cômica para não se tornar pesada para o público predominantemente infantil. Aqui, Shyamalan esquece um pouco o lado cômico e aposta na espiritualidade.

Acostumado a roteiros que devem esconder e não expor, o indiano se atrapalha um pouco ao introduzir o expectador nessa complicada história. É muita informação para se dar em tão pouco tempo.

O elenco também não ajuda. É o pior grupo de atores que Shyamalan já trabalhou em toda a sua carreira. Não só as crianças, mas também os adultos. Todos são péssimos atores. Com destaque (negativo, é claro), para Aasif Mandvi, o Comandante Zhao, e o protagonista Noah Ringer, que parece ter saído do elenco mirim das novelas da globo.

Em um filme que poderia se tornar um show de pirotecnia, Shyamalan dá segundo lugar à ação e foca nos dramas internos. O que não necessariamente torna o filme bom, é apenas um diferencal. Na verdade, seus defeitos são bem evidentes: a falta de ritmo, os atores, o roteiro. O filme foi tido como uma bomba pelos críticos norte-americanos. Eles, é claro, exageram nos defeitos quando se trata de Shyamalan, que já não dá mais ouvidos. Melhor assim.

sábado, 14 de agosto de 2010

12 Crítica: A Origem

A Origem
(Inception, 2010)
Direção
Christopher Nolan
Roteiro
Christopher Nolan
Elenco
Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ken Watanab


 Assim como seu diretor, A Origem é bom, mas nem tanto

A expectativa em torno de A Origem era imensa. O filme nem havia estreado e já era um dos assuntos mais comentados no mundo (leia-se internet). Ora, mas tal expectativa tem fundamento: A Origem é o novo filme de Christopher Nolan, diretor de Amnésia e de Batman – O Cavaleiro das Trevas.

Apesar da carreira relativamente curta, Nolan já é endeusado por alguns, é “o único a fazer cinema inteligente em Hollywood”, “gênio”, “vanguardista” e tudo mais aquilo que dizem quando um talento assim surge. 

Mas vamos com calma. Nolan é bom, mas não como dizem. Ao seu A Origem se aplica a mesma idéia. É bom. Mas nem tanto.

A história nos mostra Cobb (Leonardo Di Caprio, sempre bem), um especialista em invasões de sonhos que, junto de sua equipe, invade a mente de suas vítimas e rouba ideias nelas contidas, normalmente segredos industriais.

Impedido de entrar nos EUA, Cobb, ainda afetado pela morte da mulher (Marion Cotillard), vê a chance de voltar para junto de seus filhos quando Saito (Ken Watanabe) propõe um trabalho diferente para ele: não roubar, mas gerar uma idéia.

Então ele e sua equipe, composta por Arthur (Joseph Gordon-Levitt), Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), a novata Ariadne (Ellen Page) e o próprio Saito, que quer fiscalizar o trabalho de perto, todos com tarefas bem definidas, partem com tudo planejado para o trabalho, mas, é claro, em algum momento (que não tarda) tudo começa a dar errado.

A Origem não é inovador nem revolucionário. Na verdade, trabalha com fórmulas já conhecidas, inclusive de outros filmes de Nolan. A estrutura é a mesma dos filmes de assalto. O tema, conhecido de outros filmes (Matrix, Paprika, só para citar dois). Mas, se é assim, por que todo esse alarde em torno de A Origem? 

A resposta é formada por três partes: (a) Nolan é um diretor que sabe usar as expectativas a seu favor (ao contrário de Shyamalan), (b) Resultado de um incrível trabalho de promoção – que apostava no mistério – e, o principal, (c) O filme tem lá suas qualidades – técnicas principalmente.

Esse é um daqueles filmes que se deve assistir em uma tela gigante, com um sistema de som anabolizado. O impacto visual é imenso (uma cidade é dobrada na nossa frente!). Os efeitos visuais e sonoros, as cenas de ação (sempre muito bem dirigidas por Nolan), tudo isso mais a robusta trilha sonora de Hans Zimmer dão ao filme um ar de grandioso. 

Isso mais um roteiro bem elaborado (complicado mas não complexo) dão a falsa a impressão que A Origem é uma obra-prima. É um bom filme (bem dirigido, escrito e atuado), mas que não é tudo o que acham e dizem. Com o tempo, quando essa aura santa sobre Nolan se dispersar, vai perder um pouco o seu valor. Num processo que chamo de cult às avessas.

domingo, 25 de julho de 2010

8 Crítica: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa


Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
(Annie Hall, 1977)
Direção 
Woody Allen
Roteiro
Woody Allen, Marshall Brickman
Elenco
Woody Allen, Diane Keaton

Décadas após o seu lançamento, clássico de Woody Allen continua atual

Alguns filmes têm a incrível capacidade de permanecerem sempre atuais. O tempo passa, mas o filme não se torna datado, e, justamente, por isso tem sua fórmula usada repetidas vezes por outros. Um exemplo clássico desse caso é (o também clássico) Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen.

Dirigido, co-escrito e estrelado por Allen, o filme começa com o personagem central, Alvin Singer (Allen, com seu jeito peculiar de falar) conversando com a platéia – artifício muito usado pelo diretor – sobre si, sobre seu relacionamento recém-terminado com Annie (Diane Keaton) e como vem mentalmente montando pedaços dessa relação, buscando entendê-la. É dessa forma que tudo prossegue, como uma reunião aleatória de trechos desse relacionamento, indo e voltando no tempo, mostrando como foi a vida do casal.

O filme é muito bem escrito, sendo composto, como é normal nos textos de Allen, por diálogos rápidos e divertidos, tratando de forma profunda e inteligente o relacionamento entre os dois personagens, mas de uma maneira leve, descontraída.

É, também, inventivo na forma como nos conta a história. Tela divididas, personagens quebrando a quarta parede, “viagens no tempo” e até um trecho em animação são alguns dos artifícios usados por Allen, que, somados a uma edição dinâmica, dão ao filme um ar moderno. Uma cena em especial é muito famosa: aquela onde os personagens de Allen e Keaton conversam e vemos, sobre as falas, o que eles estão pensando.

Keaton (a melhor das musas de Allen) teve o papel escrito especialmente para ela (Annie Hall é um apelido seu), e por isso, talvez, esteja tão à vontade interpretando a si mesma. O jeito atrapalhado e o figurino unissex composto por gravatas, coletes e camisas largas fizeram muito sucesso entre as mulheres da época.

Entre muitos outros prêmios, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa recebeu 4 Oscars – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Foi o único trabalho de Allen a receber tantos Academy Awards (ele só receberia outro, pelo roteiro de Hanna e Suas Irmãs), talvez pela atitude do diretor, que não compareceu à cerimônia, pois tinha, como em todas as segundas-feiras, de tocar clarinete com sua banda de Jazz em um pequeno bar...

Clássico das comédias românticas, tem influência incrível sobre a maioria dos filmes sobre casais e discussões de relacionamentos que vemos por aí. Antes do Amanhecer, Prova de Amor, 500 Dias com Ela
(crítica aqui) e o brasileiro Apenas o Fim (crítica aqui) são filhos legítimos de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Um filme de 1977, mas que está longe de se tornar velho.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

3 Crítica: À Prova de Morte

2/5
À Prova de Morte
(Death Proof, 2007)

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Sydney Tamiia Poitier






A segunda parte de Grindhouse é um "Tarantino menor".

Em 2007, foi lançado nos cinemas Grindhouse, projeto de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez que prestava uma homenagem aos filmes de terror dos anos 70. Normalmente, tais filmes eram exibidos em cinemas de péssima qualidade (ou nos conhecidos drive-in) em sessões duplas. Logo, Grindhouse – a homenagem – é formada por dois filmes: Planeta Terror (escrito e dirigido por Rodriguez) e À Prova de Morte, escrito e dirigido por Tarantino.

Grindhouse foi um fracasso de bilheterias nos EUA. O público não conseguiu entender a proposta do projeto, que era reproduzir o clima das sessões de antigamente – com direito a trailers falsos e estética de filmes de baixo orçamento. O fiasco fez com que o filme fosse “cortado” e lançado de forma separada no resto do mundo.

O primeiro, Planeta Terror, chegou aqui ainda em 2007. À prova de Morte, que até mudou de distribuidora, só chega agora, com anos de atraso. O que soa até ingênuo: Ora, com o filme aí dando sopa na internet, será que alguém ainda não o viu?

À Prova de Morte conta a história da DJ local Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier, filha de Sidney Poitier – o primeiro ator negro a receber um Oscar de Melhor Ator) e suas duas amigas, que desejam apenas uma boa noite de diversão. As três estão sendo seguidas de perto por Stuntman Mike (Kurt Russel), um dublê que, entre outras diversões, adora levar belas garotas para o seu carro à prova de morte, onde as mata de forma brutal.

O começo do filme é promissor. A estética é interessante (os riscos e as manchas que dão ao filme um ar trash), os diálogos, os personagens. Mas logo tudo perde a graça, principalmente após a cena-clímax do acidente de carros (que é muito bem filmada). Se o filme acabasse ali, seria ótimo. Mas não, ele continua e se arrasta (a cópia brasileira, que é igual a européia, tem quase 30 minutos a mais que o original de Grindhouse), os personagens se tornam chatos; os diálogos, pretensiosos. Tudo só não se torna uma chatice completa porque Tarantino cria outra ótima cena-clímax, de novo envolvendo carros.

Com À Prova de Morte, Tarantino presta mais uma homenagem aos filmes que tanto gosta – motivo pelo qual é tão odiado e amado. Mas se em filmes como Kill Bill e Bastardos Inglórios essa homenagem se transformou em obra-prima, aqui ela se apresenta como um filme razoável.

domingo, 11 de julho de 2010

6 Crítica: Jerry Maguire - A Grande Virada

4/5
Jerry Maguire - A Grande Virada 
(Jerry Maguire, 1996)
Direção: 
Cameron Crowe
Roteiro 
Cameron Crowe 
Elenco 
Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renée Zellweger



Um divertido e emocionante passeio sobre o que é o sucesso.

Tom Cruise é um ator extremamente carismático. Mesmo interpretando anti-heróis ou qualquer outro tipo de personagem incorreto, ele necessita de pouco mais de uma cena para trazer a platéia para o seu lado. É verdade que, desde quando assumiu de vez a Cientologia e pulou no sofá da Oprah, sua popularidade vem diminuindo – seu mais novo filme (Encontro Explosivo) está sendo um fracasso de bilheteria nos EUA. Mas, mesmo assim, o ator ainda é referência nesse quesito (carisma, não fracasso de bilheterias...). Tudo isso que falei é evidente em Jerry Maguire – A Grande Virada.

O filme, outro ótimo trabalho do diretor/roteirista Cameron Crowe (Quase Famosos), conta a história do personagem-título (Cruise) um agente esportivo de grande sucesso e pouco escrúpulo que, em meio a uma crise de consciência, escreve um memorando, ou melhor, um “planejamento de metas”, defendendo a diminuição do número de clientes e uma maior aproximação desses. Que os atletas sejam tratados de forma mais humana, mesmo que isso signifique menos lucro para os agentes.

O resultado é certo: Maguire é demitido da empresa na qual trabalha e perde todos os seus clientes. Sua vida, pessoal e profissional, vai do céu ao inferno em poucos dias. As únicas coisas que lhe restam são um peixe, a contadora e mãe solteira Dorothy Boyd (Renée Zellweger) e o jogador decadente Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., em sua melhor interpretação no cinema) – o único cliente que confiou em Maguire.

É dessa forma que Maguire, mesmo a contragosto, acaba executando todas as lições de aproximação e humanidade que concebeu em seu “planejamento de metas”. Criando com Tidwell, antes só um cliente de segunda categoria, uma relação não apenas profissional, mas de amizade, ao mesmo tempo em que cria com Dorothy uma ligação bem diferente daquelas que já criou em sua vida.
A transformação (de agente sem caráter a herói) passada por Jerry Maguire é muito bem retratada por Cameron Crowe, que sabe como poucos misturar drama e comédia sem cair no caricato.

Mas, apesar de bem escrito (o roteiro foi indicado ao Oscar) e dirigido, o filme não funcionaria sem o carisma de Cruise, que conquista a platéia desde a primeira cena. O ator, indicado ao Oscar por esse papel, está bem à vontade, demonstrando talento tanto nas cenas cômicas como nas dramáticas.

Outro destaque é Gooding Jr. (premiado com o Oscar). O ator está hilário como o ganancioso jogador de futebol (americano) que pede de forma singela, em uma das melhores cenas do filme: “me mostre o dinheiro, me mostre o dinheiro”. É uma pena que a carreira de Gooding Jr. tenha seguido um rumo tão irregular.

Jerry Maguire – A Grande Virada é um filme que fala do fracasso e do sucesso, da maneira que devemos encarar os dois – tema que seria revisitado por Crowe, mais tarde, em Tudo Acontece em Elizabethtown (leia a crítica). Um bom filme, levado não só pelo talento do seu diretor e roteirista, mas também pelo carisma (e talento) de seus atores, principalmente de Cruise.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

9 Crítica: Paprika

3/5
Paprika
(Paprika, 2006)

Direção
: Satoshi Kon
Roteiro: Satoshi Kon, Seishi Minakami, Yasutaka Tsutsui
Elenco: Megumi Hayashibara, Tôru Furuya, Kôichi Yamadera




Psicodelia e sonhos nessa complicada – mas recompensadora – animação japonesa.

Ainda nem estreou, mas o novo filme do ora queridinho de Hollywood Christopher NolanBatman - O Cavaleiro das Trevas) já vem dando o que falar. Inception (A Origem, por aqui) conta com um elenco estelar (Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Michael Caine, Marion Cotillard), um diretor de talento e uma trama (que envolve máquinas que invadem sonhos) extremamente original, certo? Errado – pelo menos no que diz respeito à última parte.

Errado porque
- só para citar um dos filmes com a mesma temática - em 2006 foi lançado Paprika, filme em animação baseado no romance, de 1993, do japonês Yasutaka Tsutsui. O filme, lançado diretamente em DVD por aqui, conta a história de uma equipe de psicoterapeutas que desenvolve um aparelho capaz de entrar nos sonhos dos pacientes, e, assim, ajudá-los com suas doenças.

No entanto, três modelos desse aparelho são roubados e passam a ser usados de forma perigosa por terroristas, que entram nos sonhos das pessoas, manipulando-os, misturando aquilo que entendemos como realidade com o mundo dos sonhos. Além disso, rumores indicam que uma jovem chamada Paprika vem realizando consultas não-autorizadas com o tal aparelho “invasor” de sonhos.

Dirigido por Satoshi Kon (de Tokyo Godfathers, filme citado em Paprika), o longa tem uma trama deveras complicada, repleta de elementos psicodélicos, que exige grande atenção e raciocínio rápido de quem assiste – uma cena que começa no mundo real pode terminar no mundo dos sonhos sem nenhum aviso. Muitas das informações dadas não são mastigadas para o público. Quem assiste deve absorver o visto e chegar às suas próprias conclusões.

O excesso de complexidade na trama e a maneira como ela se desenrola torna Paprika, inicialmente, um filme difícil de se assistir, mas que, a partir do momento em que nos envolvemos com a história, se torna difícil de deixar de assistir.

A animação, de fato, mostrou-se a maneira ideal para adaptar a obra de Yasutaka Tsutsui. É difícil imaginar como o mundo onírico, com suas cores e formas, que caiu tão bem no traço animesco, seria reproduzido em uma produção em live action – ou, até mesmo, em uma animação em computação gráfica.

Indicado ao Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza, em 2006, Paprika é uma complexa experiência sensorial que parece ter sido concebida através de um sonho. Mais um exemplar das boas animações feitas no Oriente. Só não se engane com os desenhos e cores, Paprika não é um filme para crianças. É para adultos, e daqueles que gostam de pensar (e sonhar).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

5 Crítica: A Vida Marinha com Steve Zissou

A Vida Marinha com Steve Zissou
(Life Aquatic with Steve Zissou, The, 2004)

Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson e Noah Baumbach
Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett





Wes Anderson continua falando sobre famílias, mas dessa vez em um barco.

Duas coisas não podem faltar em um filme de Wes Anderson: uma relação pai e filho e... Bill Murray. O ator, sempre presente nos filmes do diretor (nem que seja em uma única e rápida cena, como em Viagem a Darjeeling), ganha aqui um filme só seu.

A Vida Marinha com Steve Zissou, terceiro filme do norte-americano, conta a história de Steve Zissou (Bill Murray), decadente documentarista e oceanógrafo, que a muito tempo virou motivo de piada pelas situações ensaiadas de seus filmes. Em sua última expedição, Zissou deparou-se com aquilo que ele mesmo batizou de Tubarão Jaguar (as duas primeiras palavras que vieram a sua cabeça quando viu o bixo), peixe que devorou seu grande amigo Steban durante as filmagens.

Preparando-se para a parte dois do seu documentário (na qual ele buscará vingança do tal Tubarão Jaguar), Zissou descobre que tem um filho de 35 anos (Owen Wilson), que banca a nova aventura de seu pai (os patrocinadores já não se interessam por esses documentários) e parte junto dele e todo o Zissou Team na caçada.

A Vida Marinha com Steve Zissou (como toda a filmografia de Anderson) não é um filme fácil de assistir - pelo menos para aqueles que não estão habituados com o estilo do diretor. Estilo esse que é fielmente mantido ao longo de sua carreira.

O humor estranho e agridoce, os personagens excêntricos e de fala esquisita, os figurinos inusitados (é difícil determinar em que época se passa o filme), os enquadramentos simétricos (mais parecidos com pinturas) e a fotografia peculiar de Robert D. Yeoman (fotógrafo da maioria dos trabalhos de Anderson). Todas essas características estão presentes e compõem o universo próprio criado por Anderson para os seus filmes.

O elenco traz alguns antigos parceiros de Anderson. Além de Murray (que combina perfeitamente com os filmes do diretor), participam do filme: Owen Wilson, frequente colaborador nos roteiros, como Ted, o filho recém-descoberto; Anjelica Huston, como a mulher de Zissou (e como dizem, o cérebro da equipe), Willen Defoe, como Klaus o braço direito de Zissou e Cate Blanchett, que demonstra grande versatilidade, como uma jornalista grávida que acompanha a expedição. Todos ótimos, em um elenco que conta ainda com Jeff Goldblum e o brasileiro Seu Jorge, que, ao longo do filme, aparece tocando e cantando clássicos de David Bowie em bom português.

São motivo de destaque ainda os seres marinhos criados por Anderson, todos reproduzidos em stop motion (o que os torna ainda mais estranhos) e o barco de Zissou, que fora partido lateralmente: uma forma criativa de nos mostrar o que acontece em cada uma das pequenas salas de maneira rápida e clara.

Mais uma vez a relação pai e filho é abordada pelo diretor, que agora tem como pai desacreditado e de gênio difícil Steve Zissou, e não Royal Tenenbaum, como em Os Excêntricos Tenembaums. Pode não ser inventivo na temática tratada, mas é na maneira como a aborda e continua sendo cinema de qualidade.

Pode ser que alguns digam que o trabalho de Wes Anderson é repetitivo, que não agüentam mais assistir a seus filmes com famílias excêntricas, Bill Murray e roteiros escritos com Owen Wilson. Mas isso pouco importa, já que o diretor/roteirista já é cultuado por uma parcela de cinéfilos que parecem gostar cada vez mais daquilo que Anderson produz. Para esses, A Vida Marinha com Steve Zissou é um prato cheio. Para os outros, talvez soe como os documentários produzidos pelo personagem do filme.

sábado, 26 de junho de 2010

6 Crítica: Kick-ass - Quebrando Tudo

Kick-ass - Quebrando Tudo
(Kick-ass, 2010)


Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Mark Millar (quadrinhos), Jane Goldman, Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage



They can't see through walls... But they can kick your ass

Para muitos fãs de HQs (inclusive eu), três eram os filmes mais esperados do ano: Homem de Ferro 2, Kick-ass – Quebrando Tudo e Scott Pilgrim Contra o Mundo. Dos três, apenas o último ainda não foi lançado (o longa estreia 13 de agosto nos EUA e 15 de outubro no Brasil). O primeiro conseguiu superar as expectativas (leia nossa crítica aqui). O segundo, lançado 18 de junho por aqui, felizmente, também.

Baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr., Kick Ass – Quebrando Tudo conta a história de Dave Lizewski, um típico nerd fracassado fã de quadrinhos, que, depois de refletir sobre o porquê de ninguém nunca ter tentado ser um super-heroi de verdade, decide se transformar em um. Ele toma coragem, compra uma roupa de mergulho no eBay e, então, nasce Kick Ass.

O filme foi rodado de forma independente, com um orçamento de 30 milhões de dólares – pouco para um filme hollywoodiano). Tal “independência” deu ao diretor Matthew Vaughn (Nem Tudo É o que Parece) a liberdade de fazer o filme do jeito que ele bem entendesse – com muita violência e palavrões, e uma conseqüente censura 18 anos.

Quem vive o herói Kick Ass é o inglês Aaron Johnson. O jovem e promissor ator (de Nowhere Boy, cinebiografia de John Lennon ainda inédita por aqui) se sai muito bem como o atrapalhado personagem. Johnson assegura que não teve nenhuma preparação especial para as cenas de ação, já que a intenção era realmente mostrar alguém sem nenhuma noção de técnicas de combate.

O vilão do filme é interpretado pelo sempre presente Mark Strong (Sherlock Holmes - crítica aqui), um milionário traficante que vê seus “negócios” prejudicados por alguém que ele acredita ser Kick-Ass. No entanto, quem está causando o estrago são dois super-heróis de verdade: Big Daddy (Nicolas Cage) e sua pequena filha Hit-Girl (Chloe Moretz).

Cage está demais no papel. Grande fã de quadrinhos (o “Cage” do seu nome é uma homenagem a Luke Cage e um dos seus filhos se chama Kal-El), ele se inspirou no Batman de Adam West para compor seu personagem, o que o torna, é claro, divertidíssimo. Mas é a pequena Chloe Moretz (500 Dias com Ela) que rouba a cena, ou melhor, o filme inteiro!

A atriz (hoje com 13 anos, mas com 11 na época das filmagens) passou por um duro treinamento para viver Hit-Girl (sim, ela sabe usar todas aquelas armas – inclusive a faca!). As melhores cenas de ação são protagonizadas por ela, que profere vários palavrões e realiza chacinas dignas de Kill Bill. O elenco ainda tem Christopher Mintz-Plasse (o eterno McLovin), como Red Mist, um herói tão desajeitado quanto Kick Ass.

O roteiro (escrito pelo diretor Matthew Vaughn e Jane Goldman) se concentra em uma única trama, não desenvolvendo bem as poucas histórias paralelas que existem, o que deixa o texto muito simples narrativamente falando. Mas isso não é bem um problema, já que Kick Ass – Quebrando Tudo não procura complexidade. Ele vai direto ao ponto, que é o que o público jovem (principal consumidor) deseja.

O filme acerta em cheio no diálogo com tal público. As cores são fortes, referências à cultura pop onipresentes, a trilha sonora empolgante. Sem falar dos inúmeros e inventivos artifícios visuais usados por Vaughn, como contar a origem do personagem de Cage através de uma revista em quadrinhos. Todos esses elementos dão ao filme um ar cool, e é exatamente disso que ele precisa.

A crítica da Veja Isabela Boscov, ao analisar o filme, o comparou com Pulp Fiction: Tempo de Violência. Eu entendo o que ela quis dizer, mas acho que, pelo colorido e a maneira através da qual a violência é retratada, Kick Ass – Quebrando Tudo se parece muito mais com Kill Bill - Volume 1. E se é para comparar os dois filmes, garanto que Hit-Girl não fica atrás de Beatrix Kiddo.