quarta-feira, 31 de março de 2010

14 Crítica: Kill Bill Vol. 1

Kill Bill - Volume 1
(Kill Bill: Vol. 1, 2003)

Um ótimo trabalho de Tarantino, que eleva ao máximo sua paixão pelos filmes que via nos tempos de balconista de locadora.

Quentin Tarantino
é conhecido por colocar e misturar elementos de diferentes gêneros do cinema em seus trabalhos. Alguns o odeiam por isso, o chamam de farsa, de oportunista; outros, porém, o amam, e veem nessa mistura feita pelo diretor a mais pura genialidade, que só poderia emanar de um apaixonado pela sétima arte.

Para aqueles que fazem parte do segundo grupo (do qual eu faço parte), Kill Bill Vol. 1, lançado em 2003, pode ser encarado com uma obra-prima, pois representa o ápice da mistura de escolas e gêneros proporcionadas por Tarantino. Encontramos aqui elementos de filmes e séries de kung-fu da década de 60 e 70, dos filmes de velho oeste, dos filmes de máfia e até mesmo de cultuados animes.

Revisitando os antigos filmes sobre vingança, Kill Bill Vol. 1 conta a história “de uma ex-assassina de aluguel (Uma Thurman) que desperta de um coma com apenas uma motivação: MATAR Bill (o falecido David Carradine). O alvo de sua vingança cometeu uma terrível traição bem no dia em que a Noiva (forma como o personagem de Thurman é chamado no filme), se casaria. Lucy Liu, Daryl Hannah, Vivica A. Fox e Michael Marsden completam o elenco e interpretam seus antigos colegas de profissão, que por participarem do massacre também enfrentarão a sua ira.”

Inicialmente um filme só, Kill Bill teve de ser dividido em duas partes (volumes), decisão que irritou alguns por parecer puramente comercial, mas que, ao meu ver, foi bastante certa, pois impediu que o filme tivesse uma metragem de mais de três horas (o que o tornaria extremamente cansativo).

Além do mais, as duas partes são bastante diferentes no que diz respeito ao ritmo imposto (enquanto a primeira foca mais nas cenas de ação e no sangue, muito sangue, a segunda se dedica mais aos diálogos e ao esclarecimento de alguns temas). Isso faz com que a divisão não cause uma “quebra” no filme. O que vemos são dois filmes que não aparentam antes ter sido um.

Uma Thurman é a grande estrela do filme. A atriz – que ajudou Tarantino na construção de sua personagem, que começou lá na época das filmagens de Pulp Ficction – passou por um rigoroso treinamento (que incluiu aprender japonês, diferentes estilos de Kung Fu e de luta com espada e se equilibrar em cabos). Nas cenas de ação, Uma emana grande naturalidade, nunca parecendo artificial. Acreditamos, realmente, que à nossa frente está uma perigosa assassina mestra em diferentes artes marciais. E, o mais importante, ela faz com que, apesar da Noiva ser tão ou mais cruel que as pessoas das quais busca vingança, torçamos pela sua vitória, para que efetive sua vingança.

Tarantino criou um universo próprio para Kill Bill, formado por elementos de diferentes gêneros e escolas cinematográficas - por isso, não estranhe ao ver pessoas saltando grandes distâncias ou quantidades torrenciais de sangue jorrando quando um membro é decepado. Ele pega tudo aquilo que mais gosta e junta em um só lugar, e o melhor: ele não deixa o filme se transformar numa bagunça.

As lutas são extremamente bem coreografadas e dirigidas (a sequencia do restaurante é uma das mais bem filmadas cenas de ação que já vi). A fotografia de cores fortes de Robert Richardson (que, recentemente, fez Bastardos Inglórios, com o próprio Tarantino) deixa o filme visualmente belíssimo. A trilha sonora é uma grande reunião de estilos – ouvimos temas de antigos seriados de kung fu, de filmes sobre a máfia japonesa, de spaghetti-westerns, sem falar da homenagem a Bernard Herrmann (presente na música assobiada pela personagem de Daryl Hannah) e da luta final ao som de"Don't Let Me Misunderstood" versão flamenca.

Kill Bill Vol. 1 é um amontoado de referências aos filmes preferidos de Quentin Tarantino - algo que o diretor faz desde Cães de Aluguel. A primeira parte de uma simples e batida história de vingança, que nas mãos hábeis de Tarantino, se torna um grande filme.

domingo, 28 de março de 2010

6 Crítica: Estranha Família

Estranha Família
(Winter Passing, 2005)









Apesar dos problemas no roteiro, pequeno drama familiar não deixa de ser interessante.

Estranha Família é mais um dos típicos filmes independentes dos Estados Unidos, daqueles que mostram pessoas sem um rumo certo na vida, que, por algum motivo, resolvem voltar para a sua terra natal, lugar onde sofrem uma série de transformações, se conhecem melhor e enfrentam antigos conflitos familiares. Um tema batido, mas que ainda é muito mais interessante que muitas coisas que saem por aí.

No filme, que é escrito e dirigido pelo estreante Adam Ripp, Reese Holden (Zooey Deschanel), uma atriz fracassada de vinte e poucos anos, recebe uma oferta de 100 mil dólares pela publicação das cartas de amor trocadas por seu lendário e recluso pai, Don (Ed Harris), e sua falecida e igualmente reverenciada esposa, a mãe de Reese. Na busca por essas cartas, Reese viaja de Nova York a Michigan, onde encontra seu pai, totalmente desligado de sua própria saúde e morando com dois jovens: a prática ex-estudante Shelly (Amelia Warner) e o aspirante a músico Corbit (Will Ferrell). Embora não seja nenhuma santa, Reese não aprova essa nova "família", mas aos poucos, começa a apreciar seus novos "irmãos".

Para que um filme tão pequeno como esse funcione é necessário um bom grupo de atores. E os de Estranha Família estão muito bem. A sempre interessante Zooey Deschanel (500 Dias com Ela) passa muito bem as mudanças sofridas por sua personagem, que, no início, estranha e despreza aquela nova família que se formou em sua antiga casa, mas que, com o passar do tempo, vai encontrando ali a família que não teve quando criança.

Completando o elenco tem um quase irreconhecível Ed Harris (Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei), a não muito conhecida Amelia Warner e o destaque Will Ferrel (Mais Estranho Que a Ficção). Diferentemente da maioria dos seus filmes – nos quais quase sempre faz personagens caricatos e irritantes –, Ferrel aqui tem uma interpretação bastante contida, sendo uma espécie de “bobo apaixonante”. O ator protagoniza uma das cenas mais bonitas do filme (a apresentação musical no bar da cidade).

O maior problema do filme, porém, está no seu roteiro. Ripp dedica muito tempo à parte menos interessante do filme: a vida da personagem de Zooey Deschanel na cidade. Algo que poderia, em um texto melhor escrito, rapidamente ser feito, alonga-se por tempo demais nas mãos estreantes de Ripp. E o tempo que sobra nesse início, falta do meio para o fim, o que prejudica o desenvolvimento das relações até ali construídas.

Com uma boa trilha sonora e belos momentos, Estranha Família é um pequeno drama familiar quase que desconhecido por aqui (e fora também) que, apesar de não trazer nada de inovador, continua sendo mais interessante que muita coisa...

quarta-feira, 24 de março de 2010

1 Crítica: Invictus

Invictus
(Invictus, 2009)


O retrato da união pelo elo mais fraco.

Nelson Mandela, ex-presidente da República da África do Sul, é talvez um dos maiores líderes que a história moderna nos proporcionou. Suas ações em prol da unificação racial e o fim do Apartheid no seu país renderam a ele o status de salvador de uma nação inteira. Ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1993 e levou a África do Sul a uma reconstrução plena em todos os setores. Mas Mandela sabia que não bastava melhorar os sistemas básicos de educação, saúde, transporte e etc. O povo deveria estar unido para que juntos, a nação pudesse ser reerguida. E é disso que Invictus fala: união.

O filme começa numa típica cena daqueles anos em que a segregação racial andava a pleno vapor: de um lado crianças brancas, devidamente bem vestidas e equipadas treinavam rúgbi em um belo campo gramado e limpo. Do outro, crianças negras, mal-vestidas, jogam futebol em um campo de areia sem a menor condição de jogo, brincam alegremente sem se importar com o outro lado da rua. Quando então a comitiva do recém liberto Nelson Mandela (Morgan Freeman) passa pela rua, reações diferentes marcam os dois lados, mas ali seria o nascedouro de uma nova África do Sul.

A partir daí uma sucessão de fatos ocorre, até que Mandela assume a presidência da república e vê uma África com sérios problemas estruturais, econômicos e políticos, na beira de uma verdadeira guera civil. Desde seus primeiros momentos de mandato, quando vê uma manchete no jornal dizendo ‘Ele foi capaz de ser eleito, mas será capaz de governar?’ se vê na pressão de manter um sentimento de paz e união que se oposse a revolta e indignação. Esse é o primeiro grande acerto dos seus longos anos na presidência da República Sul-Africana, impossível criticar o filme, talvez influenciado pela aula de Sociologia que tive mais cedo (obrigado Ana!), sem pensar nas atitudes desse homem, do quanto as suas ações em busca de ver a beleza da ‘Nação Arco-Íris’, ser única e ao mesmo tempo sem distinção de cor, influenciaram os rumos não só da África como de todo o mundo.

O filme é composto também de algumas visões que acompanham as mudanças do país: do menino que não aceita a jaqueta do time de rúgbi, os Springboks, porque sabe que se aceitar será surrado pelas outras crianças, a secretária de Mandela que ainda é relutante quanto aos seus atos em prol de popularizar o rúgbi, seus seguranças que passam a conviver com outros seguranças brancos e, talvez a mais importante, a visão de François Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe de rúgbi, que acaba se deixando sensiblizar pelas palavras e atos do seu presidente e busca na sua história de vida a motivação para ser campeão.

O modo como cada visão dos fatos se mistura acaba resultando em cenas que jamais seriam vistas poucos anos antes. A criança negra comemorando o campeonato com os policiais; os seguranças, que antes estavam em um clima de tensão completa, se confraternizando e comemorando. Mandela, sem mesmo gostar muito do esporte, aprendeu suas regras, seus macetes, os nomes de todos os jogadores e comprou a briga. Deu certo.

A direção de Clint Eastwood é muito boa e evita academicismos desnecessários e flashbacks entediantes, apesar de achar que a última cena em câmera lenta (que clichê! Só faltou o ‘We Are The Champions’ no final) foi um baita vacilo. Por que não concentrar mais as câmeras nas expressões dos personagens? Nada é perfeito, claro. Mas fica aqui o registro de que, com 80 anos de idade e mesmo fazendo um filme que é ligeiramente inferior a vários outros que já fez, Eastwood se reinventa a cada película, se transforma e ganha novas formas a cada produção, com certeza, um dos maiores diretores de nossa época.

Gostaria de falar mais desse belo filme, mas limito-me a não entregar mais detalhes. Mas ao assitir, feche os olhos críticos e seja um mero espectador da beleza humana. Você aprende mais.

quarta-feira, 17 de março de 2010

4 Crítica: Nine

Nine
(Nine, 2009)









Uma releitura de um clássico de Felini que acaba se tornando um festival de cenas mal feitas, personagens mal aproveitados e atuações medíocres.

Nine, no seu cartaz, parece ser promissor: estrelas como Penélope Cruz, Nicole Kidman, Kate Hudson, Sophia Loren e estrelas da música como Fergie, além de Daniel Day Lewis e Marion Cotillard como atores principais. Somando isso ao fato de ser a releitura do clássico 8 e ½ de Frederico Felini somos levados a pensar que estamos diante de um grande filme. Mas o que acontece é que Nine prova que nem sempre grandes estrelas fazem grandes filmes e isso, com a mais absoluta certeza, decepciona qualquer espectador.

O filme conta a história do cineasta Guido Contini que teve um início de carreira promissor com bons filmes, mas que acaba caindo num hiato criativo e produzindo fracassos cinematográficos. Guido então se vê frente ao desafio de produzir outro grande filme, um épico chamado Itália, no entanto, sem criatividade, com a esposa insatisfeita com o casamento, uma amante pegando no pé, produtores e executivos dos estúdios pressionando por um grande filme que faça sucesso. Guido então não consegue produzir uma obra de qualidade, por sinal, não passa da primeira página.

Então, entre devaneios, idéias e lembranças dos seus tempos de menino e da falecida mãe, começam as músicas e coreografias, todas passando nos estúdios da Cinecittá (onde suas idéias se concentram). E aí temos o primeiro ponto positivo e os primeiros negativos: as coreografias, extremamente bem ensaiadas e bem cantadas contrastam com sua absoluta falta de sentido no decorrer do filme. As músicas tem letras fracas e fazem o espectador ficar agoniado, esperando que elas acabem para que a história continue e ao mesmo tempo frustra o mesmo, justo pelo fato dele saber que mais lá na frente haverá outra enfadonha música. Claro, elas não deixam de ter seu lado bom, as coreografias são muito bem ensaiadas, dançadas e sensuais. Grande destaque para a dança solo de Penélope Cruz (indicada a melhor atriz coadjuvante) e a de Kate Hudson. Ah! A Fergie também dança...

E é aí que eu paro, analiso e penso: o que diabos a Fergie faz naquele filme? A resposta, meus caros leitores, é nada. Além de uma dança no meio do filme e de fazer parte das lembranças distantes do menino Guido. O mesmo serve para Sophia Loren que é apenas uma homenagem a si mesma. Temos destaques na atuação, eu particularmente gosto muito de Judi Dench, segura, cantando e dançando bem (mesmo a letra da música não ajudando), vive a figurinista Lili. Aliás, vale ressaltar que um dos grande pontos altos do filme é o figurino, indicado ao Oscar e perdendo para Jovem Vitória, que ainda não saiu nos cinemas daqui.

Já a direção chega a ser patética. Alguns outros críticos afirmam que Rob Marshall se assemelha bastante a Guido: sem rumo nem direção para o filme. Marshall tenta imitar Felini, mas ele não consegue. Fico em dúvida se é o roteiro, as músicas ou a atuação. Nine podia ser uma experiência apaixonante, mas não tem energia nem romantismo suficientes. Acaba sendo uma experiência desapontante.

domingo, 14 de março de 2010

7 Crítica: Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios
(Inglourious Basterds, 2009)







Por Mateus Souza

Com o seu épico da Segunda Guerra, Tarantino se mostra um cineasta mais seguro e arrogante. E isso é bom. Muito bom.



Com Bastardos Inglórios, fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial, Quentin Tarantino demonstra um grande amadurecimento como cineasta. E o mais importante: esse amadurecimento aconteceu sem que o diretor perdesse sua marca, sem que ele deixasse de ser “Quentin Tarantino”.

O filme – que teve a melhor abertura mundial para um filme de Tarantino, 27,5 milhões – se passa durante a Segunda Guerra, na França ocupada pelo exército alemão. Lá, a jovem Shosanna Dreyfus (Mélaine Laurent) testemunha a execução da família pelo coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz). Porém, ela consegue escapar e passa a viver sob a identidade de uma proprietária de cinema em Paris, enquanto aguarda o momento certo para se vingar. Ainda na Europa, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) organiza um grupo de soldados judeus para lutar contra os nazistas. Conhecido pelo inimigo como "Os Bastardos", o grupo de Aldo recebe uma nova integrante, a atriz alemã e espiã disfarçada Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger), que tem a perigosa missão de chegar até os líderes do Terceiro Reich. Os destinos dos dois grupos convergem para o cinema onde Shosanna está planejando a sua própria vingança.

Como é de se esperar de todo filme de Tarantino, Bastardos Inglórios é muito bem escrito. Dividido em capítulos (que foram filmados na ordem apresentada no filme, coisa difícil de acontecer em uma produção), o roteiro apresenta muito bem todos os personagens, suas histórias e como elas se cruzam. Tudo isso recheado com grandes homenagens e citações a outros gêneros do cinema – como o próprio título do filme, que é retirado do filme italiano Quel Maledetto Treno Blindato (1978), e a trilha sonora típica dos faroestes italianos.

Todo o elenco está maravilhoso. Não foi à toa que o filme ganhou o prêmio do Sindicato dos Atores de Melhor Elenco. Brad Pitt está caricato do jeito que deve ser, como o líder dos Bastardos, é impossível não se divertir com o seu sotaque sulista. Mélanie Laurent está muito bem, linda e vingativa como Shosanna. No entanto, o maior destaque no que diz respeito às atuações é o antes desconhecido por aqui Christoph Waltz (vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e de quase todos os outros prêmios que foi indicado por esse papel). O alemão, que fala inglês, italiano, francês e faz o coronel nazista mais conhecido como “Caçador de Judeus”, rouba a cena sempre que aparece – suas cenas com Pitt são as melhores!

O filme ainda conta com uma excelente fotografia, trabalho de Robert Richardson (já duas vezes premiado no Oscar pelos trabalhos em O Aviador e JFK) e uma trilha sonora deveras instigante – que vai dos temas de faroeste à músicas pop. Bastardos Inglórios é, visualmente, o mais belo filme de Tarantino, ao lado de Kill Bill.

Com um tema perfeito para ser premiado no Oscar – afinal, descapelar nazistas e explodir um teatro cheio deles é muito bem visto em Hollywood , Bastardos Inglórios foi patricamente esquecido pela Academia, levando apenas uma das oito categorias a que estava indicado. Mas, acima de tudo, o filme revela um grande amadurecimento por parte de Tarantino, que continua fazendo aquilo que sempre fez – misturando escolas, gêneros e homenageando o seus filmes preferidos –, só que muito melhor do que antes.

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 Crítica: Preciosa - Uma História de Esperança

Preciosa - Uma História de Esperança
(Precious: Based on the Novel Push by Sapphire, 2009)








O vencedor do Oscar de roteiro adaptado é um filme forte, com atuações incríveis e uma das personagens mais fortes e grotescas do cinema.

Ao ver ‘Preciosa’ no cinema você deve estar preparado. Preparado para a indignação, sofrimento, cenas fortes e talvez até trazer seu lenço. Minto, traga seu lenço: derramar lágrimas nesse filme é algo que mesmo o espectador mais forte ou orgulhoso não deve se envergonhar. Tanto pela história quanto pelas atuações, Preciosa toca o senso crítico e o coração das pessoas ao ponto de fazer você sair do cinema não só triste, também pensando em quantas tantas meninas ou meninos, ou mesmo famílias inteiras passam por situações idênticas, talvez piores e a sensação de impotência que havia na sala de cinema, quando você não podia fazer nada para impedir as maldades, ou melhor, as perversidades que a mãe de Preciosa fazia com a jovem, essa sensação transcende a sala e fica martelando a sua cabeça durante dias.

Claireece Precious Jones é a personagem principal dessa trama, uma (pré) adolescente de 14 anos de idade, violentada fisico e psicologicamente pela mãe, sexualmente pelo pai, que a engravidou aos 12 anos tendo uma filha portadora de Síndrome de Down. Depois, aos 14, sofrendo seguidos estupros, engravida novamente do progenitor (se é que aquilo pode ser chamado de pai) e é expulsa da escola. Apesar de tudo, a simpática gordinha tem seus sonhos de vida (daí a parte da esperança) o que é mostrado de forma bastante bem-humorada pelo diretor Lee Daniels. Clarieece expressa seus sonhos e suas ânsias através de devaneios, como seu sonho de ser cantora e dançarina, pop-star e outros sonhos. De certa forma isso ameniza a forte experiência que se tem durante a película, pessoas sensíveis, por exemplo, tem esse motivo para permanecer na sala.

Um primor de roteiro que ontem ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e uma montagem de elenco fantástica, com Gabourey Sidibe vivendo Precious, que está perfeita e fez jus a sua indicação ao prêmio de Melhor Atriz, contrastando a sua falta de expressão diária a alegria que tem nos seus devaneios. E aqui batemos palmas de pé para Mo’Nique que faz a verdadeira mãe que saiu do inferno. Nunca vi em lugar nenhum um personagem mais grotesco, asqueroso e repudiável em toda minha (ainda) curta vida. Eu gosto muito de analisar atuações, e a vencedora do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, desbancando a vencedora do ano passado Penélope Cruz, garantiu um primor de atuação. Não sei se, tendo concorrido ao prêmio de Melhor Atriz, ganharia de Sandra Bullock, mas com certeza seria um páreo duríssimo. Ela não consegue transmitir nenhum sentimento positivo durante todo o filme e mesmo quando parece se importar com alguma coisa, transforma-se e dá início a cena mais pertubadora e angustiante do filme, onde chega a jogar uma televisão na cabeça de sua filha e de seu recém-nascido neto. Não sei de onde Mo’Nique tirou essa capacidade, mas deve ter sido muito trabalho e ensaio para tanto, ressaltar que ela começou (e ainda é) comediante de stand-up.

Ah! Ainda sobre o elenco, ainda tem Lenny Kravitz e Mariah Carey sem nenhum luxo ou glamour (até mesmo maquiagem) e atuando muito bem como um enfermeiro gente boa que Precious se apaixona e uma assistente social, respectivamente.

Obviamente, o filme acaba caindo em alguns clichês do gênero e tem lá seus deslizes, principalmente na primeira parte do filme. Mas tenha certeza: é um filme que marca e que você não esquece durante um bom tempo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

6 Guerra ao Terror e suas bombas...

Por Mateus Souza

Com um produtor proibido de comparecer à cerimônia do Oscar e um sargento jurando que o roteiro é um plágio de sua vida, Guerra ao Terror segue firme e forte.


Talvez o grande favorito às principais categorias do Oscar 2010, Guerra ao Terror tem bombas e mais bombas explodindo ao seu redor antes da premiação.


Tudo começou no dia 24 de fevereiro, quando o produtor Nicolas Chartier resolveu mandar alguns emails para os membros da Academia, a fim de angariar votos para o premiado filme de guerra. Os emails continham mensagens como: "precisamos que filmes independentes vençam como vencem os filmes que você e eu fazemos, e se você acredita que Guerra ao Terror é o melhor filme de 2010, ajude-nos" e "se você disser a dois amigos para votar (no nosso filme) e não no filme de 500 milhões de dólares, nós vamos ganhar".


Com isso, o encrenqueiro produtor - que, durante a produção do filme, foi o pivô de algumas brigas internas e que quase teve seu nome fora da lista dos produtores reconhecidos pelo Oscar - quebrou as regras impostas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que permitem apenas que emails informativos sejam enviados aos votantes do prêmio. Tais regras - que também proibem festas, distribuição de presentinhos e etc. - buscam dar uma maior seriedade ao prêmio, e possibilitar realmente a premiação do melhor filme e não da melhor equipe de marketing.


Hoje, a diretoria do Departamento de Produtores anunciou a punição de Chartier: o produtor está proibido de comparecer à cerimônia - esta é a primeira vez na história do Oscar que alguém é punido individulamente e proibido de comparecer à premiação. Punindo Chartier individualmente, a Academia mantém o seu discurso de não prejudicar o filme com a situação.


Como se já não bastasse tudo isso, Jeffrey S. Sarver - sargento do Exército dos EUA - está movendo uma ação contra os produtores do longa, alegando que o protagonista do filme, o personagem vivido pelo indicado ao Oscar Jeremy Renner, foi inspirado nele. O roteirista e ex-jornalista Mark Boal, que nunca negou que seu roteiro tinha por base acontecimentos verdadeiros, realmente esteve como correspondente na unidade militar onde Sarver atuava como desarmador de bombas, mas daí para o que o militar diz é um longo caminho.


Para Guerra ao Terror, é uma sorte que os votos já tenham sido entregues, pois, do jeito que as coisas andam, outras bombas podem explodir.