quarta-feira, 24 de março de 2010

1 Crítica: Invictus

Invictus
(Invictus, 2009)


O retrato da união pelo elo mais fraco.

Nelson Mandela, ex-presidente da República da África do Sul, é talvez um dos maiores líderes que a história moderna nos proporcionou. Suas ações em prol da unificação racial e o fim do Apartheid no seu país renderam a ele o status de salvador de uma nação inteira. Ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1993 e levou a África do Sul a uma reconstrução plena em todos os setores. Mas Mandela sabia que não bastava melhorar os sistemas básicos de educação, saúde, transporte e etc. O povo deveria estar unido para que juntos, a nação pudesse ser reerguida. E é disso que Invictus fala: união.

O filme começa numa típica cena daqueles anos em que a segregação racial andava a pleno vapor: de um lado crianças brancas, devidamente bem vestidas e equipadas treinavam rúgbi em um belo campo gramado e limpo. Do outro, crianças negras, mal-vestidas, jogam futebol em um campo de areia sem a menor condição de jogo, brincam alegremente sem se importar com o outro lado da rua. Quando então a comitiva do recém liberto Nelson Mandela (Morgan Freeman) passa pela rua, reações diferentes marcam os dois lados, mas ali seria o nascedouro de uma nova África do Sul.

A partir daí uma sucessão de fatos ocorre, até que Mandela assume a presidência da república e vê uma África com sérios problemas estruturais, econômicos e políticos, na beira de uma verdadeira guera civil. Desde seus primeiros momentos de mandato, quando vê uma manchete no jornal dizendo ‘Ele foi capaz de ser eleito, mas será capaz de governar?’ se vê na pressão de manter um sentimento de paz e união que se oposse a revolta e indignação. Esse é o primeiro grande acerto dos seus longos anos na presidência da República Sul-Africana, impossível criticar o filme, talvez influenciado pela aula de Sociologia que tive mais cedo (obrigado Ana!), sem pensar nas atitudes desse homem, do quanto as suas ações em busca de ver a beleza da ‘Nação Arco-Íris’, ser única e ao mesmo tempo sem distinção de cor, influenciaram os rumos não só da África como de todo o mundo.

O filme é composto também de algumas visões que acompanham as mudanças do país: do menino que não aceita a jaqueta do time de rúgbi, os Springboks, porque sabe que se aceitar será surrado pelas outras crianças, a secretária de Mandela que ainda é relutante quanto aos seus atos em prol de popularizar o rúgbi, seus seguranças que passam a conviver com outros seguranças brancos e, talvez a mais importante, a visão de François Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe de rúgbi, que acaba se deixando sensiblizar pelas palavras e atos do seu presidente e busca na sua história de vida a motivação para ser campeão.

O modo como cada visão dos fatos se mistura acaba resultando em cenas que jamais seriam vistas poucos anos antes. A criança negra comemorando o campeonato com os policiais; os seguranças, que antes estavam em um clima de tensão completa, se confraternizando e comemorando. Mandela, sem mesmo gostar muito do esporte, aprendeu suas regras, seus macetes, os nomes de todos os jogadores e comprou a briga. Deu certo.

A direção de Clint Eastwood é muito boa e evita academicismos desnecessários e flashbacks entediantes, apesar de achar que a última cena em câmera lenta (que clichê! Só faltou o ‘We Are The Champions’ no final) foi um baita vacilo. Por que não concentrar mais as câmeras nas expressões dos personagens? Nada é perfeito, claro. Mas fica aqui o registro de que, com 80 anos de idade e mesmo fazendo um filme que é ligeiramente inferior a vários outros que já fez, Eastwood se reinventa a cada película, se transforma e ganha novas formas a cada produção, com certeza, um dos maiores diretores de nossa época.

Gostaria de falar mais desse belo filme, mas limito-me a não entregar mais detalhes. Mas ao assitir, feche os olhos críticos e seja um mero espectador da beleza humana. Você aprende mais.

1 comentários:

Ana Valeska Maia disse...

Você é um crítico de cinema!!!
Excelente texto.

Ah, Eduardo eu adorei esse filme e como sou irremediavelmente sentimental amei o poema...
segue um trechinho
"Não importa o quão estreito seja o portão,

O quão carregado com castigos esteja o pergaminho,

Eu sou o senhor de meu destino;

Eu sou o capitão de minha alma."

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