quarta-feira, 2 de junho de 2010

5 Sem Destino, Dennis Hopper e a Nova Hollywood.

Como surgiu Sem Destino e o que ele representa para o cinema norte-americano

Sem Destino (Easy Rider, 1969) surgiu de uma idéia de Peter Fonda. O ator, filho do lendário Henry Fonda, estava no Canadá divulgando seu novo trabalho, quando, em meio a algumas doses de alucinógenos, concebeu o argumento do filme aqui tratado: Dois caras atravessando o país de moto, depois de fazer uma grande transação de drogas, e que, ao fim do filme, seriam mortos por dois caçadores de patos, que não gostavam dos seus cabelos grandes. Fonda ligou para o seu amigo Dennis Hopper, que não acreditou quando aquele disse que o deixaria dirigir tal filme.

Naquela época, Hollywood passava por um momento difícil (e histórico). Os grandes estúdios estavam perdendo as forças e a velha guarda do cinema norte-americano começava a dar espaço à juventude que chegava. Era o nascimento da chamada Nova Hollywood, para alguns o momento mais produtivo (e destrutivo) da história do cinema. Nela, os jovens da época tomavam a frente na produção cinematográfica norte-americana, apresentando filmes com grande influência européia e que iam de encontro com todos os valores pregados pelos filmes até então produzidos e regulados pelo Código Hays – “normas que determinavam o que era moralmente aceitável para os filmes da época”.

Ao lado de Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas, Sem Destino é um dos marcos iniciais desse período. Na história, acompanhamos dois motoqueiros, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper), que, após realizarem uma grande transação de drogas (cocaína, ainda desconhecida para muitos), atravessam os Estados Unidos, até chegarem em New Orleans – onde pretendem aproveitar o carnaval local.

Com dois malucos por trás de tudo, é fácil entender que o processo de produção de Sem Destino foi deveras conturbado. Principalmente por Hopper, um maníaco psicótico, que estava no auge dos seus excessos - ele costumava filmar com duas armas de fogo carregadas em cima da mesa. Ele e Fonda brigavam constantemente, chegando ao ponto de, como contam, Fonda contratar um segurança para acompanhá-lo durante as filmagens.

Um dos grandes problemas (ao lado das crises psicóticas de Hopper e a constante mudança na equipe de filmagem) foi a concepção do roteiro. Fonda e Hopper não eram roteiristas e contrataram Terry Souththern, de Dr. Fantástico, para transformar tudo o que eles já haviam planejado em um roteiro de fato. Mas segundo os dois, Souththern só contribuiu mesmo com o título do filme (que inicialmente se chamaria The Loners). Terry Souththern, por sua vez, dizia que todo o roteiro fora escrito por ele e que Fonda e Hopper “não sabiam escrever nem a porra de uma carta.”. Hopper ainda chegou a, pouco tempo antes do lançamento, exigir que apenas o seu nome fosse colocado nos créditos, o que, é claro, deixou Fonda extremamente irritado. No fim das contas, foi o nome dos três para os créditos do roteiro, que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

No elenco estava presente Jack Nicholson, como o advogado George Hanson, que conhece os dois protagonistas na prisão e segue viagem com eles. Inicialmente, o papel seria de Rip Torn (Boneca de Carne, Doce Pássaro da Juventude), mas, após Hopper o ameaçar com uma faca de churrasco, ele abandonou a produção, fazendo com que Nicholson (um ator de pouco prestígio na época) fosse chamado para o papel.

Uma das cenas mais conhecidas do filme – aquela na qual o personagem de Nicholson divaga sobre uma invasão de venusianos – foi filmada a base de muitos baseados, principalmente por parte de Nicholson, que, naquela época, garantia que “havia queimado fumo todo dia durante quinze anos de sua vida”. Nicholson foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por esse papel.

Outra famosa cena é a da viagem do ácido. Tal cena gerou mais uma das grandes brigas do set de filmagens. Hopper pediu para que Fonda fizesse sentir a carga emocional da morte da sua mãe – que havia se suicidado – para uma cena em que ele faz inúmeras reclamações para uma estátua de Nossa Senhora.

A trilha sonora do filme é memorável, e transformou Born To Be Wild, do Steppenwolf, no hino dos motoqueiros. Era um dos primeiros filmes a usar o rock’n roll dos anos 60 como trilha sonora.

Sem Destino não é só um filme feito por malucos viciados em ácido. Ele é o retrato de uma geração que ainda não tinha ganhado forma no cinema. Imortalizou Dennis Hopper como ícone da contracultura e apresentou a essência daquilo que viria a ser a Nova Hollywood.

5 comentários:

Nekas disse...

Apresentou-nos Dennis Hopper!

Abraço
Cinema as my World

Cintia Carvalho disse...

Oi Mateus!

Ficou muito bom seu texto e sua contextualização do período em que o filme foi realizado. Embora ja tenha escutado e lido algumas coisas sobre este filme, nunca o vi. Sinceramente, nunca tive curiosidade, pois confesso que não gosto de Dennis Hopper e Peter Fonda. Nunca gostei da atuação de ambos, para mim foram dois atores fracos.
Agora seu texto foi bem escrito e cheio de curiosidades sobre os bastidores.

Bem que agora Dennis H descanse em paz, afinal teve uma vida meio conturbada aqui na terra.

Um beijinho

Kahlil Affonso disse...

'Sem Destino' não é exatamente um filme excelente, mas mostra muito bem a revolução que estava acontecendo na época e que poucos se davam conta!

http://cinema-em-dvd.blogspot.com/

Jardel Nunes disse...

Assisti a muito tempo e não me lembro quase de nada do filme, mas reconheço sua importância na história do cinema...
Ótimo texto Mateus, é muito legal saber dessas histórias de bastidores.

Plutonauta disse...

Belo texto, obrigado pela visita e comentário no meu blog .....

Infelizmente nunca tive oportunidade de ver esse filme, e acredite só você, desde o dia que o Dennis Hopper morreu, eu não tinha lembrado e nem pensado uma vez sequer em Dennis Hopper .... quando comecei ler o seu texto me lembrei na hora e tive a mesma reação que tive no dia que ele morreu ......

Um abraço, até breve .....

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