domingo, 29 de agosto de 2010

6 Crítica: Persépolis

 Persépolis
(Persepolis, 2007)

Roteiro: Marjane Satrapi (quadrinhos, romance, roteiro), Vincent Paronnaud (roteiro)
Direção: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve




Uma animação fantástica que toca e inspira a quem a assiste

Ao ver um filme de animação, acabamos por mudar os olhos de uma forma mais preconceituosa e por vezes até arrogante. Subestimamos o valor do cinema de animação como os mais novos olham com desdém ao cinema mudo, não conseguem vislumbrar que por trás de um filme de ‘desenho’, que demorou meses e as vezes até anos para ser feito, existe uma mensagem maior do que aquela que salta de cara aos olhos. Poderia citar um monte de filmes de animação que realmente elevam o cinema ao status de arte, mas eu acho que Persépolis é o exemplo perfeito, pois é daquelas obras que você jamais esquece. É como ver um quadro de Picasso e perceber que ele é singular pela forma que as tintas estão dispostas, é como ouvir Beethoven e sentir uma emoção e um prazer em cada nota, fechar os olhos e viajar pelo piano forte ou o violino suave. Persépolis não é o melhor filme do mundo, mas com certeza vai te marcar de uma forma singular.

A obra é o retrato animado dos quadrinhos lançados por Marjane Satrapi que conta sua trajetória em meio as guerras e revoluções que assolavam o Irã na década de 80. É a trajetória de uma menina que queria levar uma adolescência como gostaria que fosse. Porém vivia em uma sociedade em que as meninas tinham que cobrir sua cabeça dos pés as cabeças, não podiam namorar e nem utilizar coisas que lembrassem a cultura ocidental. Marjane só queria usar um tênis Nike, depilar as pernas e poder escutar Iron Maiden, e ela achava (com razão) que isso era ela querendo ser ela mesma e não sendo mais um daqueles robôs.

O pensamento de Marjane se externa no filme não pelas suas falas ou ações mas sim pelo jeito que ela retrata sua vida e o seu país no filme, como ele é quase todo em flashback a maior parte dele é em preto, branco e cinza, os funcionários do regime são todos homens barbudos e de fisionomia idêntica, os policiais, as freiras do internato, todos são retratados de uma forma semelhante pois para ela são como um bando de alienados que se vestem e se comportam da mesma maneira e que juram lutar por algo que os valha quando na verdade são paus mandados de um governo que busca para o povo uma falsa identidade. Seus pais, vendo que sua filha não cresceria decentemente ali mandam Marjane para a Áustria.

Lá ela conhece pessoas novas e tem seus maiores conflitos internos, conhece homens e se desilude com eles, dorme na rua, consome drogas e quando vê que aquilo não é para ela, decide voltar para o Irã. E lá se depara com uma situação ainda pior, 1 milhão de pessoas mortas nas revoluções, amigos em situação pior do que ela, o país em busca de identidade e que não deixa seus cidadãos irem em busca da sua, apoiados em uma moral religiosa que simplesmente não procede na maneira de tratar homens e mulheres em igualdade.

Persépolis te prende de uma forma indignante, não só porque você fica indignado com as injustiças e opressões, mas porque você se mostra solidário com a situação de Marjane durante o filme e por vezes até se identifica de forma pesada. De alguma forma ou de outra você se reconhece em determinada situação do filme, sabe o que ela passa. Persépolis é um filme que poderia retratar a vida de qualquer pessoa em qualquer país, independente das dificuldades que ela enfrenta. Cenas marcantes te fazem ir junto dela como a engraçadíssima cena em que ela canta Eye of the Tiger do Scorpions (mais engraçado é ela cantando naquele sotaque francês), quando ela desfigura o namorado que a traiu e ao falar com Deus quando é pequena e quando tenta se suicidar. Marjane é a personagem central e principal, porém existe uma figura central e a qual as ações de Marji estão direta ou indiretamente ligadas: sua avó materna. Ela é o fio condutor da linha de pensamento de Marji, ela ampara, corrige e mostra o caminho que a garota deve seguir. Por vezes ela pensa no que a avó faria ou diria, muito pela sua ligação. Essas coisas estão ainda mais presentes e marcantes quando ela lembra das coisas que a avó fazia, como quando ela dizia que colocava jasmins no sutiã e ficava na memória de Marjane toda vez que ela se despia e caíam as flores de jasmim dos seios. Quem teve infância com a avó ou foi intimamente ligado será profundamente tocado.

De um ponto de vista técnico a animação é completamente diferente dos desenhos americanos ou japoneses, a direção de animação fica por conta do francês Vincent Paronnaud e é singular na forma do traço e na forma de animar. É tão única que se o filme fosse feito por atores reais não seria tão bem retratado.

Persépolis é o filme que não precisa só estar na sua cabeça, mas também na sua estante.

domingo, 22 de agosto de 2010

15 Crítica: O Último Mestre do Ar

O Último Mestre do Ar
(Last Airbender, The, 2010)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone





Um filme de aventura/fantasia comum, só que com um foco diferente

Avatar: A Lenda de Aang, animação da Nickelodeon, ganhou uma adaptação em live action para os cinemas sob o comando de M. Night Shyamalan. O controverso diretor, acostumado a roteiros originais e tramas de mistério nas quais predominam o diálogo, trabalha aqui com material adaptado, muitos efeitos especiais e cenas de ação – sem falar de um público consumidor bem mais novo.

Mas Shyamalan, apesar do material pouco característico, consegue empregar o seu estilo ao filme. O misticismo e as questões interiores são supervalorizadas em detrimento da ação, o que pode decepcionar muita gente, inclusive fãs, mais acostumados e ávidos por um cinema mais espetaculoso. Em O Último Mestre do Ar (nome que o filme recebeu por causa do outro Avatar) tem ação, as cenas de lutas são interessantes (como no desenho), bem filmadas, mas não é isso que Shyamalan quer mostrar.

Ele quer mostrar o drama pessoal do garoto Aang. Ele é o Avatar, o único dentre todas as Nações que consegue manipular os quatro elementos e comunicar-se com os grandes espíritos. Tem para sim a missão de equilibrar a relação entre as quatro Nações existentes (a Tribo das Águas, o Reino da Terra, a Nação do Fogo e os Nômades do Ar). É uma trama profunda e dramática que, no desenho, ganha grande inserção cômica para não se tornar pesada para o público predominantemente infantil. Aqui, Shyamalan esquece um pouco o lado cômico e aposta na espiritualidade.

Acostumado a roteiros que devem esconder e não expor, o indiano se atrapalha um pouco ao introduzir o expectador nessa complicada história. É muita informação para se dar em tão pouco tempo.

O elenco também não ajuda. É o pior grupo de atores que Shyamalan já trabalhou em toda a sua carreira. Não só as crianças, mas também os adultos. Todos são péssimos atores. Com destaque (negativo, é claro), para Aasif Mandvi, o Comandante Zhao, e o protagonista Noah Ringer, que parece ter saído do elenco mirim das novelas da globo.

Em um filme que poderia se tornar um show de pirotecnia, Shyamalan dá segundo lugar à ação e foca nos dramas internos. O que não necessariamente torna o filme bom, é apenas um diferencal. Na verdade, seus defeitos são bem evidentes: a falta de ritmo, os atores, o roteiro. O filme foi tido como uma bomba pelos críticos norte-americanos. Eles, é claro, exageram nos defeitos quando se trata de Shyamalan, que já não dá mais ouvidos. Melhor assim.

sábado, 14 de agosto de 2010

12 Crítica: A Origem

A Origem
(Inception, 2010)
Direção
Christopher Nolan
Roteiro
Christopher Nolan
Elenco
Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ken Watanab


 Assim como seu diretor, A Origem é bom, mas nem tanto

A expectativa em torno de A Origem era imensa. O filme nem havia estreado e já era um dos assuntos mais comentados no mundo (leia-se internet). Ora, mas tal expectativa tem fundamento: A Origem é o novo filme de Christopher Nolan, diretor de Amnésia e de Batman – O Cavaleiro das Trevas.

Apesar da carreira relativamente curta, Nolan já é endeusado por alguns, é “o único a fazer cinema inteligente em Hollywood”, “gênio”, “vanguardista” e tudo mais aquilo que dizem quando um talento assim surge. 

Mas vamos com calma. Nolan é bom, mas não como dizem. Ao seu A Origem se aplica a mesma idéia. É bom. Mas nem tanto.

A história nos mostra Cobb (Leonardo Di Caprio, sempre bem), um especialista em invasões de sonhos que, junto de sua equipe, invade a mente de suas vítimas e rouba ideias nelas contidas, normalmente segredos industriais.

Impedido de entrar nos EUA, Cobb, ainda afetado pela morte da mulher (Marion Cotillard), vê a chance de voltar para junto de seus filhos quando Saito (Ken Watanabe) propõe um trabalho diferente para ele: não roubar, mas gerar uma idéia.

Então ele e sua equipe, composta por Arthur (Joseph Gordon-Levitt), Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), a novata Ariadne (Ellen Page) e o próprio Saito, que quer fiscalizar o trabalho de perto, todos com tarefas bem definidas, partem com tudo planejado para o trabalho, mas, é claro, em algum momento (que não tarda) tudo começa a dar errado.

A Origem não é inovador nem revolucionário. Na verdade, trabalha com fórmulas já conhecidas, inclusive de outros filmes de Nolan. A estrutura é a mesma dos filmes de assalto. O tema, conhecido de outros filmes (Matrix, Paprika, só para citar dois). Mas, se é assim, por que todo esse alarde em torno de A Origem? 

A resposta é formada por três partes: (a) Nolan é um diretor que sabe usar as expectativas a seu favor (ao contrário de Shyamalan), (b) Resultado de um incrível trabalho de promoção – que apostava no mistério – e, o principal, (c) O filme tem lá suas qualidades – técnicas principalmente.

Esse é um daqueles filmes que se deve assistir em uma tela gigante, com um sistema de som anabolizado. O impacto visual é imenso (uma cidade é dobrada na nossa frente!). Os efeitos visuais e sonoros, as cenas de ação (sempre muito bem dirigidas por Nolan), tudo isso mais a robusta trilha sonora de Hans Zimmer dão ao filme um ar de grandioso. 

Isso mais um roteiro bem elaborado (complicado mas não complexo) dão a falsa a impressão que A Origem é uma obra-prima. É um bom filme (bem dirigido, escrito e atuado), mas que não é tudo o que acham e dizem. Com o tempo, quando essa aura santa sobre Nolan se dispersar, vai perder um pouco o seu valor. Num processo que chamo de cult às avessas.