terça-feira, 28 de setembro de 2010

8 Exceções de Adam Sandler

Nem só de filmes ruins com Rob Schneider é composta a filmografia do ator

Semana passada, estreou por aqui Gente Grande - mais um dos filmes sem graça de Adam Sandler no qual ele interpreta a si mesmo. Esses filmes (que se tornam piores quando contam com a participação de Rob Schneider e roteiro do próprio Sandler) são a regra na carreira do comediante oriundo do Saturday Night Live.

Mas, como toda boa regra, essa também comporta exceções. São filmes nos quais Sandler sai do estereótipo moldado por ele mesmo, surpreendendo nem que seja só pela sua presença no filme.

É o caso de Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002) que pelo título e a participação de Sandler como personagem principal pode frustrar muita gente. O filme de Paul Thomas Anderson (Magnólia, Sangue Negro) não é o que parece, e é um dos mais estranhos já feitos no âmbito das comédias românticas (que trilha sonora é aquela?)

Nele, Sandler vive o problemático Barry (papel que lhe rendeu um Globo de Ouro), o irmão mais novo de sete irmãs, que, no que seria um dia comum, presencia um acidente de carro, tem um piano largado na frente de sua casa e conhece
Lena Leonard (Emily Watson), o amor de sua vida.

O filme conta com ótimos diálogos ("Eu amo tanto você que queria arrancar os seus olhos e chupá-los...") e situações non sense de altíssimo nível - como se a premissa já não fosse o bastante. Um bom e esquizito filme.

Em 2004, Adam fez
Espanglês (Spanglish), do vencedor do Oscar James L. Brooks, onde contracena com Paz Vega (Lúcia e o Sexo) e Téa Leoni (Dirigindo no Escuro). O filme é mais um daqueles que são vendidos por aqui como comédias românticas, mas, na realidade, não o são. Vale a pena ser conferido (nem que seja para admirar a beleza espanhola de Paz Vega).

Mas se em Embriagado de Amor e Espanglês Sandler mantinha a essência humorística, no drama Reine Sobre Mim (
Reign Over Me, 2007) ele sai um pouco desse caminho, não sendo nem mesmo o escape cômico do história, esse ficando a cargo do talentoso Don Cheadle.

Na trama, Sandler vive um pai de família que perdeu a mulher e as filhas no atentado terrorista de 11 de setembro. Don Cheadle vive o dentista Alan, amigo dos tempos de faculdade, que vai tentar salvar o personagem de Sandler do estado de choque em que se encontra desde fatídico dia.
O filme tira o foco da destruição material causada pelo atentado e o direciona para as consequências emocionais que o evento causou na família das vítimas.

Sandler não cai na caricatura - o que é notável diante do personagem que enfrenta - e emociona em muitos momentos (a cena em que seu personagem se desculpa e beija o rosto da mãe de sua falecida mulher, como diria Nasi, "não dá pra segurar").

Esses são três filmes que (somados ao recente Tá Rindo do Quê?) comprovam que Adam Sandler tem seus bons momentos como ator e pode sim fazer filmes interessantes. O estranho é entender o porquê de sua preferência pelas já sem graça comédias que o tornaram conhecido. 

domingo, 19 de setembro de 2010

6 Crítica: Amor à Distância

Going the Distance
Estados Unidos, 2010 - 102 min
Direção: 
Nanette Burstein
Roteiro:
Geoff LaTulippe
Elenco:
Drew Barrymore, Justin Long


Uma autêntica e, pasmem, boa comédia romântica

Para muitos, comédia romântica  é sinônimo de filme ruim. É difícil contra-argumentar esse tipo de pensamento, já que, todos os anos, inúmeras comédias românticas são lançadas seguindo uma fórmula pré-concebida, que esquece qualquer tipo de aspecto artístico para lembrar apenas de interesses comerciais. O público tem sua parcela de culpa: É ele quem lota as salas de cinemas para assistir aos "enlatados", sob o falso pretexto de diversão descompromissada.

Mas, vez ou outra, aparece alguém para mostrar que é possível produzir uma comédia romântica descompromissada, leve, que não faça feio nas bilheterias nem subestime a inteligência do espectador.

Recentemente, temos o exemplo de 500 Dias com Ela, que traz todos os elementos típicos das comédias românticas subvertidos dentro de uma gigantesca roupagem "indie". Mas Amor à Distância é um melhor exemplo de boa comédia romântica, pois não subverte ou cria nada. Trabalha com a mesma fórmula que tanto estamos acostumados a ver.

O filme, dirigido pela documentarista Nanette Burstein, trata de um tema muito em pauta e de fácil identificação hoje em dia: os relacionamentos à distânca (como o título já entrega...). Erin (Drew Barrymore) é uma aspirante a jornalista de São Francisco; Garret (Justin Long) um frustrado produtor musical de Nova York. Os dois desenvolveram um relacionamento enquanto ela estagiava em um jornal da cidade dele. Com o fim do estágio, a moça teve de voltar para a sua cidade e, descumprindo o que haviam combinado inicialmente, os dois decidem manter o relacionamento, mesmo morando em cidades diferentes.

Da estrutura narrativa aos personagens secundários (e Drew Barrymore também), tudo é bem típico das comédias românticas. Mas se é assim, o que faz de Amor à Distância um filme diferentes do "enlatados" citados no começo do texto?

A simples (mas valiosa) capacidade de navegar por um determinado gênero sem cair na banalidade. O roteirista Geoff LaTulippe utiliza cada um dos cânones das comédias românticas, só que de forma divertida e interessante, o que, na essência, eles são mesmo - desde que bem trabalhados. Aqui, não nos deparamos só com a vontade de agradar a um público fácil, tal intenção existe, é claro, mas somada à outra: a de fazer um bom filme.

Amor à Distância pode não ser o filme do ano, mas é mais um que colabora com a ideia de que diversão descompromissada não é diversão burra. E, em tempos como os de hoje , isso deve ser valorizado.
 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

9 Crítica: Chico Xavier


Chico Xavier
Brasil, 2010 - 125 min
Diretor:
Daniel Filho
Roteiro:
Marcos Bernstein
Elenco:
Nelson Xavier, Tony Ramos, Cássia Kiss


O filme merece o apelo que tem?


Antes de começar a tecer meus comentários acerca do filme, lembre-se que este é um blog de cinema e que não tem nenhum intuito de fazer apologia a nenhuma religião, todos os comentários serão baseados unicamente nos meus (humildes) conhecimentos sobre a sétima arte. Dito isto, comecemos.

A história de Chico Xavier é conhecida e admirada por grande parte dos brasileiros e até mesmo no mundo, não somente aos espíritas mas até mesmo aqueles que simpatizam com a figura do médium. Coube então ao diretor Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 1 e 2) colocar nas telas, junto ao roteiro de Marcos Bernstein, a trajetória da vida deste ser que, para os mais fervorosos foi um santo e para os mais céticos, no mínimo, uma pessoa diferente, intrigante. A direção de Daniel, conhecido por ser um diretor um tanto marqueteiro ou que dirige apenas filmes sem muito conteúdo, consegue colocar a película em nenhuma das duas categorias. De fato o filme cria um vínculo com quem o assiste, a história é contada com uma eficácia que poucos diretores nacionais possuem, não fica andando em círculos e é objetiva mesmo com pouco mais de duas horas de metragem. Por isso a mensagem chega ao público com tamanha facilidade e essa é uma das razões pelo filme ser bastante cultuado.

O começo do filme, no entanto, é um tanto pesado no tocante da atuação: há a clara impressão de pouca naturalidade por parte dos atores, somando isso a alguns defeitos técnicos, principalmente na parte do som (no começo achava que era um defeito na sala de cinema, depois ao ver em DVD confirmei) onde nem sempre o som corresponde ao que está sendo visto, faz o filme começar com uma péssima impressão. O diretor comete exageros nas primeiras seqüências, e são esses exageros que resultam nessa falta de naturalidade. Na comédia, Daniel Filho consegue explorar o máximo dos seus atores, no drama isso não acontece com tanta freqüência. Porém esses defeitos são remediados, os atores mostram firmeza e segurança nas suas performances ao decorrer do filme, destaque para Tony Ramos e Christiane Torloni que fazem o casal Orlando e Glória, eles têm seu filho assassinado e possuem certo medo da mediunidade. O casal forma a única história paralela à figura central do filme e transbordam em emoção na seqüência final. Os elementos ficcionais que são inseridos também mostram eficiência e contam com emoção as tantas histórias de famílias que foram amparadas por Chico.

O personagem de Chico, representado em três fases por três atores: Matheus Costa na infância, Ângelo Antônio na fase adulta e Nelson Xavier como idoso, merece uma análise a parte. A transposição temporal entre cada fase é feita com perfeição e o personagem evolui a cada transposição, não só no que corresponde a figura real de Chico Xavier, mas também aos atores. O que incomoda durante o filme é a visão paternalista, quase messiânica que se deu a ele, mesmo em momentos que desgastariam emocionalmente qualquer pessoa e com sensações ruins das mais diversas, Chico jamais perdia a serenidade, bondade e calma. É um tanto controverso analisar isso, eu não conheci Chico Xavier, mas será que ele era tão calmo, bondoso e paternalista assim que não haviam momentos de tristeza ou explosão? Isso tira a humanidade do personagem, deixa-o menos palpável.

Há também as mancadas: a cena do avião é, no mínimo, carregada de vergonha alheia. Não sei se pela comicidade da situação ou porque o ator André Dias não conseguiu entrar no espírito (e falo isso sem trocadilhos) do personagem Emmanuel. O fato é que a cena chega a ser constrangedora, mesmo com o próprio Chico falando dela durante os créditos.

Outro ponto bastante positivo é que ele trata o espiritismo com sobriedade e seriedade, sem fazer ‘firulas’ ou engrandecer a religião. Fascina, faz as pessoas ficarem curiosas, não pelo apelo mas sim pela história contada. O fato é que Daniel Filho consegue acertar mais do que errar, Chico Xavier é um bom filme, mas não é uma maravilha cinematográfica. Fica aqui o questionamento: será que mesmo sem o apelo religioso citado, Chico Xavier é um filme que merece todo esse apelo do público? A crítica é unânime: o filme tem seus pontos positivos, mas nem de longe é o melhor que o cinema nacional produziu. Acredito que o público, ao ver um filme principalmente de cunho religioso, devia livrar-se destes mesmos preceitos e ser mais crítico.

Nosso Lar, que vem como uma sequência de filmes sobre o médium (uma espécie de trilogia sobre Chico Xavier, que será sucedido por As Mulheres de Chico Xavier), também será analisado por mim em um futuro próximo, afinal também está cotado para ser um dos filmes candidatos ao Oscar.

sábado, 4 de setembro de 2010

9 Crítica: Encontros e Desencontros

5/5
Lost In Translation
Estados Unidos, 2003 - 105 min
Diretor:
Sofia Coppola
Roteiro:
Sofia Coppola
Elenco:
Bill Murray, Scarlett Johansson


"For relaxing times, make it Suntory time"

Quando, em 1990, Sofia Coppola apareceu como Mary Corleone na terceira parte de O Poderoso Chefão, a impressão que se teve foi que a moça só estava ali por causa do seu papai Francis. E, de fato, era isso mesmo. Até Framboesa de Ouro a moça recebeu. Atuar não era com ela, mas dirigir (e escrever) sim. Ela lançou essa suspeita com Virgens Suicidas (1999) – sua estréia na direção – e confirmou com Lost In Translation, seu trabalho seguinte, chamado de Encontros e Desencontros, por aqui.

No filme, Sofia conta a história de Bob Harris (Bill Murray, em seu melhor trabalho no cinema), um decadente ator em plena crise da meia-idade e Charlotte (Scarlett Johansson, linda e talentosa), uma jovem recém formada em Filosofia que ainda não sabe bem o que fazer.

Os dois estão hospedados no mesmo hotel em Tóquio. Ele para participar de alguns comerciais (“ao invés de estar atuando em alguma peça”, como mesmo diz), e ela acompanhando seu marido (Giovanni Ribisi), com quem casou a pouco tempo. Em comum: o fato de estarem perdidos na vida.

É a relação dos dois o ponto central do filme. Como um encontra no outro uma ligação, por mais passageira que seja, com o mundo, e Tóquio aparece como metáfora perfeita para o sentimento de “deslocamento” dos dois.

Do chuveiro mais baixo ao templo budista, o choque cultural é imenso – e engraçado. Não tem como não rir dos olhares incrédulos e cínicos que Murray faz com cada situação. Sofia acerta ao tratar com sutileza a diferença cultural. A capital japonesa não se transforma em uma caricatura. Ela só é... Diferente.

A relação de companheirismo criada entre o dois personagens centrais é bonita e delicada, algo que transcende o físico (só há um único beijo entre os dois no filme). E esse é um dos diferenciais do relacionamento: não vemos duas pessoas procurando um grande amor ou algo do tipo. São só duas pessoas solitárias que não querem se separar.

O filme foi bastante elogiado pela crítica e arrastou algumas indicações e prêmios importantes – como o de Melhor Roteiro Original do Oscar –, e hoje é Cult. Sofia Coppola, apesar de ter poucos filmes em seu currículo, já se mostra uma diretora madura. Seu novo filme, Somewhere – o quarto da carreira – é grande favorito na disputa do Festival de Veneza 2010. Enfim, ainda bem que ela desistiu de ser atriz.