segunda-feira, 13 de setembro de 2010

9 Crítica: Chico Xavier


Chico Xavier
Brasil, 2010 - 125 min
Diretor:
Daniel Filho
Roteiro:
Marcos Bernstein
Elenco:
Nelson Xavier, Tony Ramos, Cássia Kiss


O filme merece o apelo que tem?


Antes de começar a tecer meus comentários acerca do filme, lembre-se que este é um blog de cinema e que não tem nenhum intuito de fazer apologia a nenhuma religião, todos os comentários serão baseados unicamente nos meus (humildes) conhecimentos sobre a sétima arte. Dito isto, comecemos.

A história de Chico Xavier é conhecida e admirada por grande parte dos brasileiros e até mesmo no mundo, não somente aos espíritas mas até mesmo aqueles que simpatizam com a figura do médium. Coube então ao diretor Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 1 e 2) colocar nas telas, junto ao roteiro de Marcos Bernstein, a trajetória da vida deste ser que, para os mais fervorosos foi um santo e para os mais céticos, no mínimo, uma pessoa diferente, intrigante. A direção de Daniel, conhecido por ser um diretor um tanto marqueteiro ou que dirige apenas filmes sem muito conteúdo, consegue colocar a película em nenhuma das duas categorias. De fato o filme cria um vínculo com quem o assiste, a história é contada com uma eficácia que poucos diretores nacionais possuem, não fica andando em círculos e é objetiva mesmo com pouco mais de duas horas de metragem. Por isso a mensagem chega ao público com tamanha facilidade e essa é uma das razões pelo filme ser bastante cultuado.

O começo do filme, no entanto, é um tanto pesado no tocante da atuação: há a clara impressão de pouca naturalidade por parte dos atores, somando isso a alguns defeitos técnicos, principalmente na parte do som (no começo achava que era um defeito na sala de cinema, depois ao ver em DVD confirmei) onde nem sempre o som corresponde ao que está sendo visto, faz o filme começar com uma péssima impressão. O diretor comete exageros nas primeiras seqüências, e são esses exageros que resultam nessa falta de naturalidade. Na comédia, Daniel Filho consegue explorar o máximo dos seus atores, no drama isso não acontece com tanta freqüência. Porém esses defeitos são remediados, os atores mostram firmeza e segurança nas suas performances ao decorrer do filme, destaque para Tony Ramos e Christiane Torloni que fazem o casal Orlando e Glória, eles têm seu filho assassinado e possuem certo medo da mediunidade. O casal forma a única história paralela à figura central do filme e transbordam em emoção na seqüência final. Os elementos ficcionais que são inseridos também mostram eficiência e contam com emoção as tantas histórias de famílias que foram amparadas por Chico.

O personagem de Chico, representado em três fases por três atores: Matheus Costa na infância, Ângelo Antônio na fase adulta e Nelson Xavier como idoso, merece uma análise a parte. A transposição temporal entre cada fase é feita com perfeição e o personagem evolui a cada transposição, não só no que corresponde a figura real de Chico Xavier, mas também aos atores. O que incomoda durante o filme é a visão paternalista, quase messiânica que se deu a ele, mesmo em momentos que desgastariam emocionalmente qualquer pessoa e com sensações ruins das mais diversas, Chico jamais perdia a serenidade, bondade e calma. É um tanto controverso analisar isso, eu não conheci Chico Xavier, mas será que ele era tão calmo, bondoso e paternalista assim que não haviam momentos de tristeza ou explosão? Isso tira a humanidade do personagem, deixa-o menos palpável.

Há também as mancadas: a cena do avião é, no mínimo, carregada de vergonha alheia. Não sei se pela comicidade da situação ou porque o ator André Dias não conseguiu entrar no espírito (e falo isso sem trocadilhos) do personagem Emmanuel. O fato é que a cena chega a ser constrangedora, mesmo com o próprio Chico falando dela durante os créditos.

Outro ponto bastante positivo é que ele trata o espiritismo com sobriedade e seriedade, sem fazer ‘firulas’ ou engrandecer a religião. Fascina, faz as pessoas ficarem curiosas, não pelo apelo mas sim pela história contada. O fato é que Daniel Filho consegue acertar mais do que errar, Chico Xavier é um bom filme, mas não é uma maravilha cinematográfica. Fica aqui o questionamento: será que mesmo sem o apelo religioso citado, Chico Xavier é um filme que merece todo esse apelo do público? A crítica é unânime: o filme tem seus pontos positivos, mas nem de longe é o melhor que o cinema nacional produziu. Acredito que o público, ao ver um filme principalmente de cunho religioso, devia livrar-se destes mesmos preceitos e ser mais crítico.

Nosso Lar, que vem como uma sequência de filmes sobre o médium (uma espécie de trilogia sobre Chico Xavier, que será sucedido por As Mulheres de Chico Xavier), também será analisado por mim em um futuro próximo, afinal também está cotado para ser um dos filmes candidatos ao Oscar.

9 comentários:

Ana Valeska Maia disse...

Eduardo,
Muito legal teu texto.
O apelo comercial nas produções contemporâneas tem sido um fator problemático, pois na busca da adequação ao gosto geral e da sofisticação técnica a arte pode se perder nas curvas do caminho.
Saí da exibição desse filme com a sensação de ter visto um novelão das oito.
Apesar de tudo o filme consegue dialogar com a mensagem da doutrina, tem bons atores no elenco.
Apenas uma correção: o título do filme dos diretores Glauber Filho e Halder Gomes que será lançado em breve é "As mães de Chico Xavier".
Bjs.

Eduardo Porto disse...

Muito obrigado pela informação Ana! Será devidamente corrigido!

Carol Morais disse...

Meu amor, muito bem elaborada a tua crítica. Eu não assisti à película, mas sinto que se o tivesse feito, provavelmente sairia com essa sensacão de que algo me faltou ou que o filme foi meramente comercial.
Eu não me admiro, uma vez que a maioria dos filmes brasileiros cai no gosto comercial por necessidade, já que a indústria cinematográfica no Brasil não é tão desenvolvida e, infelizmente, não é provida de recursos financeiros suficientes. Temos bons atores, isso é verdade. O que nos falta são melhores producões.

Um beijo, meu amor.

Eduardo Porto disse...

Sim, meu anjo, o que você falou é verdade. O fato é que a indústria nacional não tem por onde correr, somos vítimas do marketing quando até mesmo filme de produções independentes com orçamente muito menor conseguem muito mais transformar o cinema em arte de fato.

Beijos, meu amor.

Silvia Freitas disse...

acredito que o filme é sim interessante, mas como uma biografia de alguém que tem foi uma pessoa muito boa, um exemplo a ser seguido. Mas não acho o filme tão bem produzido assim para concorrer ao Oscar, seria um erro e desperdício de tentativa de levar o troféu.

Mateus Souza disse...

Esse tipo de biografia não me agrada. Respeito o medium e o espiritistmo (apesar de não crer), mas, entre os Xavier, prefiro o Charles, lider dos X-Men, huahua.

Carol, não acho que o problema sejam as produções nacionais. Filmes bons nós temos, e muitos. O problema é a distribuição. Somada, é claro, ao público que se contenta em ver os filmes globais (como esse).

Para concorrente brasileiro no Oscar, torço por Os Famosos e os Duendes da Morte.

Vlw!

Renan Canuto disse...

Eu gostei do filme. Tony Ramos, como sempre, excelente e Christiane Torloni, certamente mais enraizada no personagem pelo drama que viveu quando perdeu um filho, dá um show de emoção em diversas cenas.

Eduardo, é passível de discussão questionar a serenidade de Chico Xavier. Imagino que você, ao escrever sobre isso, estava falando diretamente da cena quem uma mulher, discrente de uma carta psicografada, cospe na cara do médium. Sinceramente, não vi apelo paternalista ali. O cara, indiscutivelmente, era diferenciado, primava pela bondade. Não vou dizer que era um enviado de Deus, ou mesmo um santo, mas ele era diferente, inegavelmente.

Ps: não sou espírita, mas também não sou doente, nem alienado com qualquer religião.

Ainda não vi Nosso Lar, mas, pelo que tenho escutado por aí, Chico Xavier é muito melhor que essa "sequência".

Acho que faltou um destaque a belíssima atuação de Nelson Xavier, completamente focado no papel.

Questão intrigante: Chico era um homem bom, mas por que a peruca, claro sinal de vaidade?

Carol Morais disse...

Mateus, eu concordo com você. Não disse que temos filmes ruins, muito pelo contrário, há vários filmes brasileiros que são bons. O problema maior, como cite anteriormente, é a escassez de recursos financeiros, que acarreta uma queda significativa na qualidade da producão.

Abracos!

Cristiano Contreiras disse...

Eu achei um bom filme, mais pelos desempenho do elenco e da maneira como a sensibilidade do mestre Chico foi transposta e muito bem personificada pelos três atores - em especial, Angelo Antonio.

Mas, no geral, o filme peca...sem falar na técnica. E não gosto de Daniel Filho.

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