sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

7 Crítica: O Grande Truque

4/5
The Prestige
EUA, UK, 2006 - 129 min.
Diretor:
Christopher Nolan
Roteiro:
Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Elenco: 
Hugh Jackman, Christian Bale,  Michael Caine


Um truque de mágica muito bem executado

Christopher Nolan, atualmente, é “O Cara” em Hollywood. O diretor, responsável pela revitalização do Batman nos cinemas, emplaca um sucesso atrás do outro. Seu último filme, A Origem (leia a crítica aqui),  foi a quarta maior bilheteria do ano (faturou aproximadamente 825,4 milhões de dólares). Isso sem falar que é tido como nome certo entre os futuros indicados ao Oscar.

Em 2006, entre os dois filmes do Homem-Morcego, Nolan lançou O Grande Truque, que pode não ser Cult como Amnésia (2000) nem  um autêntico blockbuster como Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), mas é um de seus melhores  filmes.

A história, passada  na Londres do final do século XIX e  início do século XX,  mostra-nos dois mágicos, Alfred Borden (Christian Bale, o Batman) e Robert Angier (Hugh Jackman, o Wolverine). Os dois ilusionistas, inicialmente amigos, desenvolvem entre si uma rivalidade exacerbada, que evolui ao ponto de levá-los a uma obsessiva e inacabável disputa para ver quem é o melhor.

No elenco, além de Bale e Jackman, estão Michael Caine (que viria a se tornar figura freqüente nos filmes do diretor),  Rebecca HallScarlett Johansson (dupla de Vicky Cristina Barcelona) - esta última em um papel pequeno e desinteressante. O  camaleônico David Bowie e o "Gollum" Andy Serkis  fazem uma pequena, mas importante, participação, como o cientista Nikola Tesla e seu empregado Alley, respectivamente. Tesla, para os menos entendidos, de fato existiu e foi um importante cientista do campo da eletricidade.

O roteiro dos irmãos Nolan, baseado no romance de Christopher Priest, apresenta uma história não-linear, com diferentes linhas narrativas que se cruzam e que, de hora em hora, mudam a nossa opinião a respeito de quem é o vilão e quem é o mocinho  da história.

Se em A Origem temos sonhos dentro de sonhos, aqui  o texto traz  narrativas dentro de narrativas. São três no total, uma nascendo de dentro da outra e alternando-se para contar a história. Escrito parece complicado, mas, na tela, não é.  Mérito  da coesão do texto dos irmãos que, aliado a uma excelente montagem, não deixa o público se perder, construindo uma narrativa de fácil compreensão, apesar da sua estrutura complexa – virtude essa não presente em A Origem.

No início do filme, aprendemos que um truque de mágica é composto por três momentos distintos. A Promessa, na qual o mágico apresenta um objeto comum à platéia. A Virada, onde algo de extraordinário é feito sobre o objeto antes comum e, por fim, o Grande Truque, que é o momento principal da mágica, no qual ela encontra o seu desfecho, levando a platéia ao delírio. 

O Grande Truque é como uma dessas mágicas, e Nolan, o mágico em questão, executa  cada passo de forma tão envolvente e hábil  que é preciso um final típico de Hollywood (daqueles explicadinhos) para que entendamos a  sua grandiosidade.  

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

6 Crítica: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

3/5
The Imaginarium of  Doctor Parnassus
França, Canadá, UK, 2009 - 122 min.
Diretor: 
Terry Gilliam
Roteiro:
Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco:
Heath Ledger, Christopher Plummer, Tom Waits, Andrew Garfield

O mundo imaginário de Terry Gillian

O norte-americano Terry Gilliam, homem por trás de clássicos como Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975) e Brazil - Filme (1985), é conhecido pelas imensas dificuldades que enfrenta para finalizar seus projetos – isso quando consegue finalizá-los.

Com seu mais recente filme, O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (2009), não poderia ser diferente. Mais ou menos na metade das filmagens, Gilliam  perdeu um de seus principais atores, Heath Ledger - vítima do uso abusivo de medicamentos.

Mas, com a imaginação que lhe é peculiar, Gilliam encontrou não só uma maneira de salvar o filme como, também, de homenagear o falecido amigo. Para isso, chamou Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrell para substituir o ator nas cenas que ainda não haviam sido filmadas. Como isso foi possível? Ora, estamos falando de um filme de Terry Gillian...

Na história, conhecemos dr. Parnassus (Christopher Plummer), um homem de mais de dois mil anos que viaja mundo afora com seu pequeno circo itinerante, do qual fazem parte seu fiel, e pequeno, parceiro Percy (Verne Troyer), o jovem Anton (Andrew Garfield, de A Rede Social) e a bela Valentina (Lily Cole),  filha de Parnassus. O velho senhor tem um longo histórico de apostas com  Nick (Tom Waits), o Diabo, que está de volta para cobrar um de seus prêmios: Valentina, que logo completará 16 anos.

Angustiado com a iminente perda de sua filha para o tinhoso, Parnassus encontra em Tony (Ledger, Depp, Law e Farrel), um moribundo desmemoriado que junta-se à trupe, uma esperança de salvar Valentina, já que, com seu aparecimento, é feita uma nova proposta pelo Diabo: aquele que mais rápido conseguir 5 almas, fica com a moça.

É no imaginarium, espelho mágico de Parnassus, que acontecem as disputas pelas almas. O espelho cria um mundo novo de acordo com a imaginação de quem o adentra – possibilitando até que alguém se transforme em quatro. 

É nele que o filme ganha um ar “terrygilliano”. A londres suja e úmida do mundo real dá lugar a um lugar cheio de criaturas e situações surreais que facilmente nos remetem às animações criadas pelo diretor em sua época de Monty Python. 

Mas não é esse o principal do filme. Na verdade, o tom onírico é só uma conseqüência (e das boas) da presença de Terry Gilliam por trás das câmeras. As principais virtudes de O Mundo Imaginário... são a história e os personagens (todos bem construídos e interpretados).

O último filme de Heath Ledger tende a ser apreciado por um público restrito, afinal, Terry Gilliam será um eterno cult. Seus trabalhos são como o imaginarium do filme, e nem todos estão preparados para adentrar a  sua mente insana.

sábado, 18 de dezembro de 2010

4 Crítica: Skyline – A Invasão

2/5
Skyline
EUA, 2010, 94 min.
Direção:
Colin Strause, Greg Strause
Roteiro:
Joshua Cordes, Liam O'Donnel
Elenco:
Donald Faison, Eric Balfour, David Zayas


Um filme B com efeitos especiais de filme A

Hoje em dia, é possível produzir um filme com efeitos especiais de ponta sem que rios de dinheiro sejam gastos. Distrito 9 é um bom exemplo disso: Na ficção científica produzida por Peter Jackson foram gastos “meros” 30 milhões de dólares  - quantia baixíssima para uma produção do gênero. 

Com essa tendência de barateamento técnico, é natural que filmes de segunda linha passem a apresentar bons efeitos especiais, o que em parte, pode tirar sua essência de filme B. Mas não é isso o que acontece em Skyline – A Invasão (cujo orçamento foi apenas de 10 milhões de dólares), que, no começo, até disfarça, mas logo  mostra sua real natureza trash – e é ai que o filme fica divertido.

Na história, Jarrod (Eric Balfour, o Eddy de The OC) e sua namorada Elaine (Scottie Thompson) vão passar um final de semana em Los Angeles,  na cobertura do seu  milionário amigo Terry (Donald Faison, da série Scrubs). Depois da festa, os amigos são acordados por estranhas luzes  vindas de fora das janelas, e que atraem , misteriosamente, aqueles que as olham diretamente. Daí para descobrir que se trata de uma invasão alienígena é um pulo.

Os irmãos Colin Strause, Greg Strause (os culpados por Aliens Vs. Predador: Requiem) não escondem a preferência dada ao aspecto técnico em detrimento dos demais. Só assim para escalarem um grupo de atores tão ruins. Isso sem falar do roteiro extremamente superficial, que não  cria um mínimo de identificação entre os personagens e o público. Ou seja, um desastre.

No entanto, em determinado momento (na metade, aproximadamente) a natureza trash do filme, antes maquiada pelos efeitos de ponta, começa a aparecer. Personagens começam a desenvolver super-poderes (com direito a um espancamento de alien com placa de cimento); cérebros passam a ser devorados e pessoas, cuspidas do interior de aliens. Isso sem falar da cena final, que, com chave de ouro, sela  essa metamorfose trash – tal qual aquela sofrida pelo personagem de Jeff Goldblum, em A Mosca.

Essa transformação não salva Skyline – A Invasão, que continua sendo um péssimo filme, mas, mesmo que involuntariamente, o torna um pouco mais divertido. 

Para os irmãos Strause , Skyline representou  não só mais um filme ruim no currículo, mas uma possível ação judicial tendo a Sony Pictures como autora. Já que a empresa de efeitos especiais da qual os dois fazem parte, a Hydraulx, está prestando serviços para a Sony em um filme nos mesmos moldes,  chamado Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles - o que pegou um pouco mal para os irmãos.

Deixando o aspecto jurídico de lado, Skyline – A Invasão, apesar de ruim, é capaz de entreter e, até mesmo, divertir, mesmo que faça isso involuntariamente. Um filme B, escondido entre alguns efeitos especiais, mas que, no fim das contas, não engana ninguém.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

4 Crítica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

3/5
You Will Meet a Tall Dark Stranger
EUA , 2010 - 98 minutos
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Gemma Jones, Naomi Watts, Josh Brolin, Anthony Hopkins, Antonio Banderas

Woody Allen e a insignificância da vida
  
Em seus últimos filmes, Woody Allen apresentou o que o crítico Marcelo Hessel chamou de crônicas comportamentais. São filmes singelos, focados nos dramas cotidianos, quase que banais, dos personagens, e que terminam com algum tipo de conclusão moral ou filosófica – sempre fornecidas pelo narrador, seja ele personagem ou não.

Foi assim em Vicky Cristina Barcelona, foi assim em Tudo Pode Dar Certo e é assim em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos – o mais fraco dos três.

Na história do novo filme, somos rapidamente apresentados a vários personagens, cada um deles com seus “pequenos” dramas pessoais. Alfie (Anthony Hopkins) já não agüenta mais viver com a esposa  Helena (Gemma Jones), que parece  não acompanhar o seu  estilo de vida jovial, e a troca pela jovem  Charmaine (Lucy Punch). Sally (Naomi Watts), filha de Alfie e Helena, também não vai bem em seu casamento com o escritor frustrado Roy (Josh Brolin), o que a faz investir na relação com Greg (Antonio Banderas), seu chefe e dono de uma galeria de Arte. Roy, por sua vez, vive com a angústia de não conseguir emplacar outro livro de sucesso e encontra na jovem Dia (Freida Pinto) um consolo.

Com tantos e diferentes personagens, Allen mostra que aquilo que está dizendo  acontece e se aplica, de fato, a todas as pessoas. O neurótico diretor ilustra seu pensamento com um trecho de Macbeth, famosa tragédia shakespeariana : “Fora! apaga-te, candeia transitória! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa”. 

Ou seja, não devemos nos preocupar tanto com os nossos problemas, afinal, a vida não significa muita coisa. E, no fim das contas, todos nós encontraremos o  estranho moreno e alto a que o título original se refere (piada perdida com a adaptação nacional).

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não é um trabalho melhor que os dois anteriores de Allen - Vicky Cristina Barcelona tem melhores personagens e Tudo Pode Dar Certo é bem mais divertido. No entanto, mantém a perspicácia típica dos trabalhos do cineasta. Os diálogos são ótimos e a mensagem, mais uma vez, passeia entre o otimismo e o pessimismo. Como seus últimos filmes, esse não irá marcar a extensa carreira do diretor, mas,  ainda assim, vale a pena assistir.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

3 Crítica: Scott Pilgrim Contra o Mundo

4/5
Scott Pilgrim versus the World
EUA, Inglaterra, Canadá , 2010 - 112 min.
Direção:
Edgar Wright
Roteiro:
Edgar Wright, Michael Bacall, Brian Lee O'Malley
Elenco:
Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Jason Schwartzman

 A linguagem pop elevada à potência máxima

Quando teve seu painel apresentado na principal sala do primeiro dia da Comic-Com 2010, conhecida como a maior feira nerd do ocidente, Scott Pilgrim Conta o Mundo (adaptação para o cinema da HQ de Bryan Lee O'Malley) empolgou todos os presentes, causando grande expectativa em relação à sua estréia.

No entanto, quando finalmente estreou, o filme que parecia um sucesso certo, foi um fracasso de público, não conseguindo nem mesmo pagar o seu custo. Uma pena, pois o filme do diretor Edgar Wright (o mesmo de Todo Mundo Quase Morto, 2004), além de extremamente divertido, apresenta uma maneira nova de adaptar para as telas os quadrinhos e os games.

Na história, Scott Pilgrim (Michael Cera, que mais uma vez interpreta a si mesmo, coisa que ninguém pode fazer melhor) é um roqueiro “pós-adolescente” de Toronto que se apaixona pela estadunidense Ramona Flowers ( Mary Elizabeth Winstead, de À Prova de Morte), mas, para que possa ficar com a garota de cabelos coloridos, Pilgrim terá de enfrentar seus Sete Maléficos Ex-Namorados, que são vividos por atores dentre os quais estão Jason Schwartzman (Três é Demais), Chris Evans (Quarteto Fantástico) e o ex-superman Brandon Routh.

O ritmo que Writght emprega ao filme é frenético. A edição é surtada: os diálogos, às vezes, começam antes mesmo da cena da qual fazem parte chegar – como na conversa entre Scott e sua namorada teenager (vivida por Ellen Wong) na loja de discos. A tela está sempre lotada de informações, sejam elas  placas com características dos personagens ou onomatopéias, no caso de alguém bater na porta ou o telefone tocar.

Writght domina muito bem a linguagem pop que se propõe a usar e a eleva à potência máxima – sendo justamente essa característica um dos principais fatores que levaram Scott Pilgrim Contra o Mundo fracassar nas bilheterias. 

Afinal, agradar às pessoas da Comic-Com com um filme nesses moldes é compreensível, levando em consideração que a maioria ali está familiarizada com todos os elementos loucamente maximizados por Wright, mas querer que o grande público compre a idéia de  inexplicáveis batalhas  épicas envolvendo super-poderes e personagens com mais de uma “vida” é forçar a  barra demais – apesar de eu adorar tudo isso no filme.

Scott Pillgrim é um filme corajoso, que inova ao criar uma estética visual, por incrível que pareça, nunca antes utilizada em adaptações de quadrinhos ou videogames. É um filme que funciona apenas para um grupo específico de pessoas, mas que faz isso de maneira grandiosa.