sexta-feira, 1 de abril de 2011

18 Crítica: Sucker Punch - Mundo Surreal

Sucker Punch
EUA, Canadá , 2011 - 110 min.
Direção:
Zack Snyder
Roteiro:
Zack Snyder, Steve Shibuya
Elenco:
Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino


Fetiche nerd-mor garante ótimas cenas de ação, mas peca por se  levar muito a sério

Em seus primeiros filmes, o americano Zack Snyder trabalhou com histórias de outras pessoas. E não eram quaisquer pessoas. Primeiro, em Madrugada dos Mortos (2004), refilmou o clássico de George E. Romero. Depois, adaptando duas clássicas HQs, 300 (2006) – de Frank Miller – e Watchmen - O Filme (2009), de Alan Moore. Fã de todos esses nomes, Snyder tratou bem o material que tinha em mãos, conseguindo relativo sucesso e ganhando o respeito dos fãs, que se encheram de expectativa com  Sucker Punch, o primeiro trabalho de história original do diretor.

Escrito em parceria com Steve Shibuya, a trama do longa gira em torno de Baby Doll (Emily Browning), órfã que, acusada de assassinato pelo padrasto, vai parar em uma instituição para doentes mentais, onde, em alguns dias, passará por uma lobotomia.

Diante do destino trágico, Baby Doll cria um mundo alternativo em sua mente, no qual o manicômio em que está é, na verdade, um cabaré/prostíbulo de luxo e as outras internas, assim como ela, estão ali sendo exploradas e não tratadas. 

Existe, ainda, um desdobramento desse mundo imaginário, que surge todas as vezes que a garota é intimada a dançar. Nesse mundo, ela conhece seu mentor, vivido por Scott Glen, que, em um templo budista, diz que, para fugir do manicômio, serão precisos cinco coisas: um mapa, uma chave, uma faca, fogo e, finalmente, um propósito.

Assim, sempre que começa a dançar, Baby Doll é transportada para esse segundo mundo imaginário, no qual, com a ajuda das outras meninas (Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung), todas lindas e com pouca roupa, lutará contra samurais, orcs, robôs, autômatos nazistas e etc, sempre em busca dos tais itens necessários para a fuga.

É claro que não há absolutamente nenhum sentido nisso tudo, mas não precisa ter. Estamos na mente fértil de uma adolescente e mais importante que algum nexo é o que Snyder pode criar com todos esses mundos imaginários.

É com essa ampla possibilidade criativa que Snyder usa e abusa dos elementos que o fizeram famoso. O visual rebuscado, presente desde Madrugada dos Mortos, e as sequências de ação cheias de pirotecnia e câmeras lentas encontram seu ápice – a luta com os samurais e a sequência no trem são provas cabais que Snyder sabe muito bem criar cenas de ação instigantes.

O bom uso da trilha sonora, outra forte marca do diretor, porém, não é tão marcante quanto em outros trabalhos, e, se funciona nas cenas de ação, fica devendo nas mais dramáticas. 

No entanto, o maior problema de Sucker Punch é o terceiro ato, que vai de encontro a tudo até ali proposto. Diante da estrutura esquemática criada por seu texto, Snyder e Shubuya tentam sair do previsível e acabam errando feio, passando, de maneira pseudo-intelectual, uma desnecessária lição de moral.

Sucker Punch não é um filme ruim. Seu sofrível terceiro ato não compromete tudo construído pelos dois primeiros. Só não gaste muito tempo pensando no final. Principalmente se isso desviar sua atenção da cena de dança que vem com os créditos.

terça-feira, 22 de março de 2011

7 Crítica: Melinda e Melinda

Melinda and Melinda
EUA, 2005 - 99 min.
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Will Ferrell, Neil Pepe, Radha Mitchell, Chloë Sevigny


Um passatempo leve e inteligente

Em Melinda e Melinda (2004), Woody Allen põe em pauta uma interessante questão: Essencialmente, a vida é uma comédia ou uma tragédia? É sobre tal indagação que um grupo de amigos, dentre os quais dois escritores de teatro – um de comédias e outro de tragédias – discute em um restaurante nova-iorquino.

O que seguia para ser um típico filme de Allen, repleto de diálogos eruditos de teor existencialista, logo se transforma quando um dos amigos dá a seguinte ideia: desenvolverá uma simples premissa a partir da qual os cada um dos escritores deverá dar sua opinião e dizer se se trata de uma comédia ou uma tragédia. A premissa é: uma convidada indesejada, Melinda (Radha Mitchell), chega de surpresa em um importante jantar que acontece na casa de amigos.

As duas versões (uma essencialmente cômica e outra essencialmente trágica) se intercalam de maneira aleatória, bem como os comentários daqueles que as idealizam.

Das duas, a mais divertida, naturalmente, é a cômica, que conta com um Will Ferrell mais contido, como em Mais Estranho que a Ficção (2006) e Estranha Família (2005), interpretando o alter-ego de Allen. O mais interessante, porém, não é qual dos contos é o melhor, e sim como elementos presentes nas duas histórias (um diálogo, uma olhada no espelho) acontecem de maneira diferente, tudo em razão da predominância do cômico ou do trágico.

Foi essa a maneira que Allen pensou para nos dizer algo que até parece óbvio: não existe uma forma definida da vida. A tragédia e a comédia da vida estão nos olhos de quem as vê. E, mais otimista do que em filmes como Igual a Tudo na Vida e Tudo Pode Dar Certo (nos quais chega a conclusões semelhantes), conclui que isso de nada tem importância, pois a vida é uma só e devemos aproveitá-la enquanto há tempo.

Melinda e Melinda é um filme leve e despretensioso (e esquecível também), que, com todo o seu minimalismo, ao fim, faz o público pensar, e faz isso de maneira simples e direta, sem muita enrolação. Afinal, como diz um dos personagens: "viemos aqui para uma noite divertida e relaxante".

terça-feira, 8 de março de 2011

8 Crítica: Trovão Tropical

Tropic Thunder
EUA , 2008 - 107 min.
Direção:
Ben Stiller
Roteiro:
Ben Stiller, Justin Theroux e Etan Cohen
Elenco:
Ben Stiller, Jack Black, Robert Downey Jr.

 Hollywood rindo de si mesma

Quem vê o título, o orçamento (92 milhões de dólares) e algumas cenas isoladas de Trovão Tropical pode ter a impressão que se trata de um filme de guerra comum. Impressão essa que fica abalada no exato momento em que o nome de Ben Stiller aparece na tela. O ator (aqui também co-produtor, co-roteirista e diretor) é o principal responsável por esse filme-paródia – que não fica apenas no campo dos épicos de guerra, mas se estende para toda a indústria de cinema dos Estados Unidos.

Na hitória, conhecemos os superastros Tugg Speedman (Stiller), Jeff Portnoy (Jack Black, careteiro como nunca) e Kirk Lazarus (Robert Downey Jr.), todos protagonistas de uma grande produção hollywoodiana chamada Trovão Tropical, que adapta a autobiografia do ex-combatente Quatro Folhas (Nick Nolte).

Com orçamento estourado, egos em conflito e muitos atrasos, o diretor estreante Damien Cockburn (Steve Coogan), aconselhado pelo  próprio Quatro Folhas, resolve filmar na marra: abandona os atores na selva e promete fazer tudo no maior estilo “guerrilha”. Mas, é claro, as coisas não saem como esperado e os astros  em conflito passam a enfrentar perigos reais na selva vietnamita.

Apesar de estereotipados (o óbvio em uma paródia), os personagens são ótimos – mérito dos atores. Principalmente Stiller e Downey Jr. (inusitadamente indicado ao Oscar). Stiller faz o típico ator de ação que sonha em ser reconhecido pela Academia, mas que sofre para conseguir soltar algumas lágrimas em cena. Downey Jr., por sua vez, é um laureado e metódico ator australiano (uma clara referência a Russel Crowe), que, para entrar no personagem, chega até a fazer uma cirurgia de mudança de cor (!). Além desses dois, tem ainda Tom Cruise, irreconhecível como o produtor Les Grossman, que rouba a cena todas as vezes que entra em tela.

Além de bom texto e atores, Trovão Tropical conta ainda com um eficiente trabalho técnico. A direção de Stiller, aliada à fotografia de John Toll (O Último Samurai) e a trilha de Theodore Shapiro recriam muito bem todos os clichês dos filmes de guerra – O Resgate do Soldado Ryan que o diga. Toda essa pompa técnica torna ainda mais engraçado o que vemos na tela, principalmente nas cenas de resgate que acontecem no início e no fim.

Trovão Tropical é  um filme que ri de si mesmo – afinal, todos ali são oriundos da Hollywood que tanto esculacham, talvez daí sua maior graça. Para quem é adepto do politicamente correto e alheio aos bastidores de Hollywood, vai parecer grotesco e gratuito. Para quem não é, também - a diferença é que esses vão se divertir com isso tudo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

11 Oscar 2011: Apostas e comentários

Quem deve ganhar e quem eu gostaria que ganhasse o prêmio da Academia

Neste domingo acontecerá a maior e mais esperada premiação de cinema dos Estados Unidos: O Oscar. E como todos estão lançando suas listas de apostas, lançarei também a minha, visando as principais categorias apenas e complementando com alguns comentários. Se quiser ver minhas apostas do ano passado, clique aqui. Então, sem mais demora, vamos lá:

MELHOR FILMEO Discurso do Rei

O Discurso do Rei tem tudo para levar o prêmio de melhor filme. Não é o melhor fillme, mas tem mais a cara de Oscar. Levou grande parte dos prêmios dos sindicatos, incluindo o Directors Guild of America (o sindicato dos diretores) e o Producers Guild of America (que, seria o correspondente à categoria de melhor filme do Oscar). Uma pena, pois a Rede Social e Bravura Indômita (para não falar outros da lista) são bem melhores. Torço para A Rede Social.

MELHOR DIRETOR: Tom Hooper (O Discurso do Rei)

Nessa categoria, alguns falam da possibilidade de David Fincher ganhar, como que uma forma de compensação pela derrota em melhor filme. Gostaria que assim fosse, mas acho improvável. Dificilmente o vencedor do sindicato de diretores diverge do vencedor do Oscar - o número de votantes em comum é enorme. O trabalho de Hooper não é ruim. Talvez, sem sua direção O Discurso do Rei se tornasse bem mais chato do que em alguns momentos é. Apesar disso, David Fincher ou os irmãos Coen seriam um melhor destino para a estatueta despida.

MELHOR ATOR: Colin Firth (O Discurso do Rei)

Categoria que normalmente é de fácil previsão está mais fácil do que nunca nesse ano. Colin Firth arrastou tudo o que era possível por seu trabalho em O Discurso do Rei. E não é pra menos, o inglês de 50 anos, indicado ano passado, faz um trabalho incrível, vivendo o rei gago George VI. O interessante é que todos os outros indicados apresentam trabalhos dignos de premiação, e não apenas de indicação.

MELHOR ATRIZ: Natalie Portman (Cisne Negro)

Outra categoria quase certa. A bailaria com problemas psicológicos Nina tem tudo para dar a Natalie Portman sua primeira estatueta. Não sei até que ponto é o melhor trabalho de Portman, prefiro muito mais sua personagem em Closer, mas o fato é que a Academia adora caretas e cara de choro - e nisso Portman dá show aqui. Annette Bening corre por fora pelo papel da lésbica "pai" de família que interpreta em Minhas Mães e Meu Pai (um dos meus filmes preferidos da lista), mas dificilmente atrapalhará a festa de Portman e dos indies desse mundo.

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christian Bale (O Vencedor)

Outra coisa que Hollywood adora são personagens que requerem uma grande mudança física no ator. É o caso do ex-lutador de boxe e viciado em craque vivido por Bale, que vem levando tudo o que é prêmio por esse papel. Sem dúvida a atuação de Bale é maravilhosa, mas outros ótimos trabalhos figuram na lista. Como o de Geoffrey Rush por "O Discurso do Rei" e Mark Ruffalo, por Minhas Mães e Meu Pai. De todos, o que mais gostei foi Ruffalo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Melissa Leo (O Vencedor)

A veterana Melissa Leo encontrou sucesso na carreira depois dos 50. Depois de anos de tabalho sem muito reconhecimento, a novaiorquina foi indicada ano passado por Rio Congelado e agora chega como grande favorita por seu trabalho de mãe dominadora em O Vencedor. No entanto, apesar de tudo, Leo cometeu uma tremenda gafe que comprometeu seu favoritismo (entenda mais aqui). O fato é que a jovem Hailee Steinfeld (apenas 14 anos) ganhou força com isso. Sem dúvida, prefiriria que a vencedora fosse Steinfild. A garota está demais interpretando a pequena e falastrona Mattie Ross em Bravura Indômita. 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Christopher Nolan (A Origem)

O inglês Cristopher Nolan deve levar seu primeiro Oscar esse ano. Para muitos injustiçado por não está presente na lista dos cinco diretores, Nolan recebeu a premiação do WGA, sindicado de roteiristas de Hollywood, o que o credencia a favorito na disputa. Sem dúvidas, Nolan foi o que teve mais trabalho pra escrever o roteiro, porém, ao meu ver, isso não o torna o melhor. Mas, apesar de gostar de Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko por "Minhas Mães e Meu Pai", se o Oscar for para Nolan estará em boas mãos.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Aaron Sorkin (A Rede Social)

Vencedor quase certo. O atual e inteligente roteiro de Sorkin, também vencedor do WGA, pode ser um dos únicos prêmios do antes favorito A Rede Social. Da lista, outro trabalho notável é o dos irmãos Coen, que adaptam tão bem o livro de Charles Portis. O prêmio indo para qualquer desses dois já estaria em boas mãos.
 
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 3

Única animação presente no rol dos dez melhores filmes, Toy Story 3 deve levar facilmente o Oscar de melhor animação, e manter a hegemonia da Pixar. Gosto dos filmes da Pixar, mas ainda não os troco pelas animações de Hayao Miyazaki e seu estúdio Ghibli.

Enfim, escrevi mais do que gostaria, mas aí estão minhas apostas para as principais categorias do Oscar. Infelizmente, a maioria dos meu palpites não são aqueles que eu gostaria ver ganhando, mas, mesmo assim, vejo melhores vencedores esse ano que no ano passado. E vocês, em quem apostam?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

6 Crítica: Caça às Bruxas

Season of the Witch
EUA , 2011 - 98 min
Direção:
Dominic Sena
Roteiro:
Bragi F. Schut
Elenco:
Nicolas Cage, Ron Perlman, Christopher Lee


Nicolas Cage em mais um filme sem propósito

Poucos são os atores que conseguem por características próprias ou elementos comuns em todos os seus personagens sem se tornar canastrões. Desse seleto grupo fazem parte nomes como Bill Murray, Jeff Bridges e... Nicolas Cage. No entanto, diferentemente de Murray e Bridges, que apresentam  certo critério na escolha de seus projetos, Cage aceita o que aparece pela frente – vai ver é por causa de suas inúmeras dívidas que, vez ou outra, estampam os jornais.

O resultado é que a cada cinco trabalhos de Cage, quatro são tremendas bombas (dos últimos, só se salvam Kick-Ass - Quebando Tudo e Vício Frenético). E, se você viu o trailer de Caça às Bruxas,  já deve imaginar de qual grupo ele faz parte. 

O filme do diretor Dominic Sena, o mesmo de 60 Segundos, é ruim, bem ruim, mas encontra sua "salvação" em um elemento recorrente nos filmes trash (mesmo não sendo exatamente um): o humor involuntário. Grande parte desse humor é devido a Nic Cage, que, sem hesitar, apresenta novamente as suas já conhecidas expressões faciais – só o que muda mesmo é a peruca da vez. 

O longa, um suspense sobrenatural de época, conta a história dos cavaleiros Behmen (Cage) e Felson (Ron Perlman, mais conhecido como o Hellboy), que, depois de vários anos lutando nas Cruzadas, já não querem fazer parte de toda aquela matança, dão uma de traidores do movimento e abandonam o exército.

Sem muito lugar para ir e com cuidado para não serem identificados – traidores nunca são bem vindos –, os dois acabam em um vilarejo onde vêem de perto a devastação que a peste negra vem causando na Europa. Não demora e eles logo são descobertos e presos. Entretanto, um moribundo cardeal (Christopher Lee, irreconhecível)  faz uma última proposta aos dois guerreiros: escoltar uma (suposta) jovem bruxa (Claire Foy, atriz mais conhecida por trabalhos para a TV inglesa), que, segundo a lógica montypythiana utilizada pela Igreja, é a responspavel por toda aquela desgraça.

O roteiro de Bragi F. Schut até tenta gerar algum mistério em torno da personagem de Foy (se ela é mesmo uma bruxa ou não) e o diretor Dominic Sena faz o mesmo para criar suspense: tudo em vão. A inépcia dos dois (a história nunca envolve e, com exceção de algumas cenas no início, o suspense é inexistente) somada à presença de Cage, que, involuntariamente, é cômica, leva o filme a um resultado totalmente diverso daquele que ele se propõe. Parece que estamos diante de um filme-paródia.

No fim das contas, o que era pra ser um suspense/terror mais parece uma comédia pastelão. Para quem procura alguns sustos ou uma história que cause um mínimo de medo, uma tremenda frustração. Para quem só quer se divertir com a nova peruca do Nicolas Cage, pode ser interessante. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

5 Crítica: Superbad - É Hoje

Superbad
EUA , 2007 - 114 min.
Direção:
Greg Mottola
Roteiro:
Seth Rogen e Evan Goldberg
Elenco:
Jonah Hill, Michael Cera, Christopher Mintz-Plasse


Um divertido "bromance" adolescente

De uns tempos para cá, os “bromances”  ganharam força em Hollywood. O termo (combinação aglutinada de brother e romance) representa aquele  forte sentimento de amizade que surge entre os homens e que, geralmente, é declarado na forma de um “te considero para caramba, cara”.

Superbad – É Hoje, 2007, é um dos primeiros dessa nova safra de comédias sobre amizade masculina que, diferentemente de suas opositoras românticas, tem como principal público alvo os homens. É o que se pode ver em filmes como Eu Te Amo, Cara, Se Beber Não Case (leia a crítica), O Dia da Transa e  o recente Um Parto de Viagem.

Em Superbad, a amizade em questão é a dos “losers” Seth (Jonah Hill) e Evan (Michael Cera). Amigos desde os oito anos e bem próximos de terminar o colegial, os dois tentam ignorar o fato de que vão se separar no próximo verão – irão para universidades diferentes.

Ao invés de lidar com isso, eles dedicam toda atenção (principalmente Seth) a última possibilidade de conseguir algum sucesso com as garotas antes da faculdade. E para alcançarem tal objetivo precisarão da ajuda de Fogell (Christopher Mintz-Plasse, O Red Mist de Kick-Ass), “nerd” clássico, que com sua identidade falsa – na qual responde pelo discreto nome de McLovin –, comprará algumas bebidas alcoólicas para a dupla. É nessa odisséia adolescente que consiste o filme.

A química entre Hill e Cera é incrível. O primeiro faz o tipo “gordo pervertido” e tem, de longe, as melhores falas (como aquela em que discorre sobre seus desenhos na infância ou do formato do seu pênis na calça jeans mais apertada). Cera, por sua vez, faz o mesmo personagem de Juno, Scott Pilgrim, e Nick & Norah: o nerd calmo e sentimental. Se, por um lado, demonstra pouca (ou nenhuma) versatilidade do ator, por outro, resulta em algo que ele sabe fazer muito bem.

Enquanto foca apenas nesses dois personagens, o roteiro escrito em parceria por Seth Rogen e Evan Goldberg é eficientíssimo. No entanto, o filme perde ritmo a partir da criação de uma trama paralela protagonizada por McLovin e os dois policiais que o tem sob “custódia”. 

Os momentos brilhantes de Hill e Cera passam a dividir espaço com outros de puro tédio, que em nada contribuem à trama. Os policiais, um deles interpretado pelo próprio Rogen, são chatos e caricatos, seguindo aquele esgotado estereótipo norte-americano de “tira babaca”. As piadas perdem a graça. É praticamente outro tipo de humor (um bem pior). E a atuação afetada de Mintz em nada ajuda nesse aspecto.

Mas isso não faz de Superbad – É Hoje um filme ruim. É apenas um contra em meio a tantos prós. A forma natural e sutil com que o diretor Greg Mottola (do bom Férias Frustradas de Verão) trata a  relação de amizade entre a dupla protagonista e o timing cômco desta superam esses pequenos problemas . Não é o filme ideal para se assistir com a namorada. Os amigos seriam a melhor escolha. Nem que seja para, ao final do filme, trocar o “eu te considero para caramba” por um “eu te amo” – mas sem muito contato físico, é claro.

sábado, 29 de janeiro de 2011

13 Crítica: Um Lugar Qualquer

Somewhere
EUA , 2010 - 98 minutos
Direção:
Sofia Coppola
Roteiro:
Sofia Coppola
Elenco:
Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius


Sofia Coppola não precisa de palavras para dizer algo

Um Lugar Qualquer marca a volta de Sofia Coppola às comédias dramáticas – gênero que a tornou famosa  e que não era visitado pela moça desde Encontros e Desencontros (leia mais aqui).

Não que isso signifique uma quebra ontológica em relação ao seu filme anterior, Maria Antonieta, já que Coppola, apesar de vagar por cenários diferentes em seus trabalhos (da frança pré-revolucionária ao Japão contemporâneo), mantém a mesma essência em todos eles: o retrato de alguém inadequado ao meio em que vive.

Aqui, conhecemos Johnny Marco (Stephen Dorff – tão inusitado quanto Bill Murray em Encontros e Desencontros), um famoso ator de filmes de ação e sua vida repleta de extravagâncias, da qual ele tem pouco ou nenhum controle. Apesar das festas e do hedonismo exacerbado, Johnny vive em um completo tédio, a ponto de adormecer enquanto duas gêmeas lindas dançam ao som de My Hero do Foo Fighters. Assim como faz com sua Ferrari nas horas vagas, Johnny anda em círculos dentro daquele universo que, ironicamente, é o que o faz existir, que o torna o que ele é.

Mais uma vez Sofia utiliza do artifício feminino para tirar seus protagonistas do limbo existencial em que estão presos, e a relação paternal que era metafórica em Encontros e Desencontros ganha ar literal com a entrada de Cleo (Elle Faning, irmã da Dakota), filha de 11 anos de Johnny e que passará alguns dias na luxuosa suíte na qual ele mora. Nesses poucos dias junto de Cleo, Johhny perceberá que ainda existe salvação para si, e que é justamente sua filha, alguém que, de fato, precisa dele, a chave de tudo.

Sofia filma tudo isso sem nenhuma pressa, com pouquíssimos diálogos, abusando do caráter contemplativo de sua câmera. Observamos o dia-a-dia dos dois  calmamente (o videogame, o ping-pong, a patinação no gelo, o violeiro no hotel), sentindo o que eles sentem, sem a necessidade de nenhum diálogo.

É justamente nesse aspecto que o filme pode se tornar chato para alguns, que, acostumados com o cinema dinâmico e explicativo  típico de Hollywood, talvez não tenham paciência para a sutileza de Coppola. Uma pena, pois Um Lugar Qualquer é cinema de primeira qualidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

10 Crítica: Amor Sem Escalas

Up In The Air
EUA , 2009 - 109 min.
Direção:
Jason Reitman
Roteiro:
Jason Reitman e Sheldon Turner
Elenco:
George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga


Jason Reitman apresenta um trabalho oportuno e bem feito.

Um filme pode ser considerado sob dois diferentes pontos de vistas. O ponto de vista ideológico, no qual tenta defende-se algum  tipo de valor ou ideia. E o  ponto de vista objetivo, do qual  todo o valor ideológico  é extraído, e o filme é visto como mero entretenimento.

Algumas obras trazem suas ideologias escancaradas para todos verem. Outras são mais sutis, deixando tudo nas entrelinhas. Amor Sem Escalas faz parte do primeiro grupo. Sua ideologia é bem clara. Trata-se de um alento, uma mensagem de esperança para os americanos que, naquele momento, viviam uma arrasadora crise econômica.

O roteiro se baseia no livro de Walter Kirn, lançado em 2001, mas que se enquadra perfeitamente no cenário econômico da época. Nele conhecemos Ryan Binghan (George Clooney), um executivo que ganha a vida de forma peculiar. Ele trabalha para uma empresa que presta serviços a outras demitindo funcionários em larga escala. Sob o eufemismo de Conselheiro de Transições de Carreira, Ryan passa o ano inteiro viajando, vivendo mais tempo nos hotéis e aeroportos do que em casa.

Mas isso não é um problema para ele. Ryan é um daqueles solteirões convictos e adora levar a vida sem muitos vínculos pessoais – como ele mesmo diz, devemos “esvaziar nossas mochilas” para sermos felizes. No entanto, essa maneira de pensar se transforma à medida que duas mulheres entram na vida dele.

A primeira delas é Alex Goran (Vera Farmiga), uma mulher com um estilo de vida semelhante ao de Ryan. Assim como o personagem de Clooney, ela passa mais tempo em aeroportos do que em casa, e os  encontros só acontecem quando coincide dos dois estarem perto entre uma viagem e outra. A segunda é a jovem Natalie Keener (Anna Kendrick), nova na empresa e criadora de um novo mecanismo de demissões que, para o desespero do protagonista, não exige que viagens sejam feitas: tudo será via internet.

É com a entrada dessas duas na história que Ryan começa a repensar seu moderno estilo de vida, que abre mão de antigos valores, que, segundo a ideologia do filme, são importantes, como o casamento, os amigos e a família. O diretor e co-roteirista Jason Reitman (Obrigado Por Fumar, Juno) trata essa transformação com muita sutileza, fugindo  muito bem dos clichês em que poderia esbarrar - que são vários.

No fim das contas, a mensagem construída por Reitman pode até parecer piegas (apesar do filme nunca chegar a esse ponto) e conservadora, mas é extramente oportuna. Nada melhor para os americanos do que alguém dizendo que os valores da vida moderna, incluindo aí o tão sonhado sucesso profissional, vem bem atrás do carinho dos amigos e da família.

Não se engane com título nacional, Amor Sem Escalas é uma comédia dramática (e não romântica). As atuações são bilhantes (principalmente a de Kendrick). A trilha sonora e o roteiro também.  É verdade que funciona melhor para o público norte-americano, que sofreu e ainda sofre os efeitos da crise econômica, mas  isso não o impede de ser apreciado por qualquer outro público, nem que seja por mero entretenimento.

domingo, 16 de janeiro de 2011

5 O Globo de Ouro 2011

  
Mais do que um  simples "termômetro" do Oscar, prêmio da HFPA acontece hoje.

Hoje (16/01) acontece no hotel Beverly Hilton na Califórnia a 68ª entrega dos Golden Globes - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (entenda mais sobre o prêmio nesse texto).

Além de laurear os melhores do cinema e da televisão, o Globo de Ouro é conhecido também como um dos termômetros do mais importante prêmio do cinema norte-americano: o Oscar. Mas, diferentemente da premiação concecida pelos sindicatos, que possuem muitos votantes em comum com o prêmio da Academia, o Globo de Ouro é votado por jornalistas e funciona não como um indicador direto dos premiados, mas dos indicados.

Os membros da Academia, não tem tempo para assistir a todas as produções cinematográficas do ano (afinal, eles trabalham fazendo cinema, e não assistindo). Cabe, então, aos jornalistas da área - que, em razão do trabalho,  assistem a quase tudo lançado por lá no ano - "selecionar" aquilo que, de fato, vale a pena ser visto.

Nesse sentido, podemos observar que o Globo de Ouro exerce uma influência bem maior do que um mero "termômetro" do Oscar. Influência essa que a jornalista brasileira (e votante) Ana Maria Bahiana definiu muito bem em seu texto de hoje no UOL Cinema ao dizer que  os Golden Globes  tem "a capacidade de desenhar o campo para cada disputa, abrindo espaço para o talento, a qualidade e a originalidade que de outra forma poderia passar despercebido no maior mercado audiovisual do mundo".

Deixando de lado essas questões, o fato é que a cerimônia do Globo de Ouro é muito mais descontraída e divertida de se assistir que a do Oscar, apesar dos esforços desse para tornar  a sua  premiação menos  cansativa e burocrática. Para os Globos desse ano, falando de cinema, os grandes favoritos são A Rede Social e o inglês O Discurso do Rei, nos dramas, e Minhas Mães e Meu Pai, nas comédias.

O apresentador será mais uma vez o comediante britânico Rick Gervais e Robert De Niro é o homenageado da vez. A TNT transmitirá a premiação desde a chegada dos convidados até a entrega dos troféus, a partir das 22h, enquanto o E!, além da chegada dos convidados, a partir das 21h, mostrará, também, a festa pós prêmio, às 2h.

domingo, 9 de janeiro de 2011

3 Crítica: Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited
EUA , 2007 - 91 min.
Direção:
Wes Anderson
Roteiro:
Wes Anderson, Roman Coppola e Jason Schwartzman
Elenco:
Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman


O barco de Zissou dá lugar a um trem,  mas Wes Anderson continua falando de famílias

Lá pelo meio de Viagem A Darjeeling um dos personagens diz: “Gostaria de saber se nos três seríamos amigos na vida real. Não como irmãos, mas como pessoas”. É a prova  cabal que Wes Anderson sabe mesmo o quanto as relações familiares são complicadas. Mas isso não precisava ser provado: o norte-americano sempre gostou de abordar o tema “família” em seus filmes, como fez em Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e em A Vida Marinha com Steve Zissou (2004, leia a crítica). Em Viagem a Darjeling ocorre o mesmo - e tão bem quanto nos filmes anteriores.

Aqui, acompanhamos Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody)  e Jack Whitman (Jason Schwartzman), três irmãos que não se viam desde o enterro do pai, a um ano atrás. A pedido de Francis,  que recentemente sofreu um acidente que quase lhe custou a vida, os três reúnem-se novamente para uma viagem espiritual pela índia, a bordo do trem Darjeeling Limited, onde pretendem recuperar e reforçar os laços fraternos a muito tempo rompidos, além de encontrar a mãe (Anjelica Huston) que vive como missionária.

Se em Zissou Anderson usava o barco Belafonte para vagar lateralmente pelos cômodos com sua câmera, aqui, tal trabalho é feito sobre o Darjeling Limitada. Vagão por vagão, janelinha por janelinha, Anderson passeia com seu jeito todo peculiar de filmar, com enquadramentos simétricos, close-ups, e câmera movimentando-se na direção do personagem que fala.

Por falar em personagens, os daqui continuam tão bons quanto o dos trabalhos passados – ajudados pelo ótimo trabalho do trio principal. Eles não são tão esquisitos quanto os outros, é verdade,  mas mantêm o mesmo poder de fácil identificação que nós faz ver um pouco da nossa família e nós mesmos na tela. Afinal, quem nunca pensou em fugir quando as coisas não iam bem ou ouviu aquela mesma musica pra relembrar  uma ex-namorada? 

Além do longa de 91 minutos, existe um curta metragem de 13 minutos que precede a exibição do filme. Intitulado Hotel Chevalier, o curta retrata o encontro  acontecido antes da viagem entre o personagem de Schwartzman e sua namorada, interpretada por Natalie Portman. Filmado  e escrito pelo próprio Anderson, Hotel Chevalier ajuda a entendermos um pouco mais do personagem e de alguns diálogos do filme vindouro.

Viagem a Darjeeling não é tão "ame-o ou deixe-o" como os outros trabalhos de Wes Anderson. O humor agridoce e os diálogos inusitados permanecem, mas a história não parece se passar em uma realidade alternativa como nos dois antecessores. Um excelente filme que trata de forma um pouco mais realista e menos esquisita (apesar de ainda ser) as famílias disfuncionais que Anderson tanto utiliza em seu cinema. Indicadíssimo.