sábado, 29 de janeiro de 2011

13 Crítica: Um Lugar Qualquer

Somewhere
EUA , 2010 - 98 minutos
Direção:
Sofia Coppola
Roteiro:
Sofia Coppola
Elenco:
Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius


Sofia Coppola não precisa de palavras para dizer algo

Um Lugar Qualquer marca a volta de Sofia Coppola às comédias dramáticas – gênero que a tornou famosa  e que não era visitado pela moça desde Encontros e Desencontros (leia mais aqui).

Não que isso signifique uma quebra ontológica em relação ao seu filme anterior, Maria Antonieta, já que Coppola, apesar de vagar por cenários diferentes em seus trabalhos (da frança pré-revolucionária ao Japão contemporâneo), mantém a mesma essência em todos eles: o retrato de alguém inadequado ao meio em que vive.

Aqui, conhecemos Johnny Marco (Stephen Dorff – tão inusitado quanto Bill Murray em Encontros e Desencontros), um famoso ator de filmes de ação e sua vida repleta de extravagâncias, da qual ele tem pouco ou nenhum controle. Apesar das festas e do hedonismo exacerbado, Johnny vive em um completo tédio, a ponto de adormecer enquanto duas gêmeas lindas dançam ao som de My Hero do Foo Fighters. Assim como faz com sua Ferrari nas horas vagas, Johnny anda em círculos dentro daquele universo que, ironicamente, é o que o faz existir, que o torna o que ele é.

Mais uma vez Sofia utiliza do artifício feminino para tirar seus protagonistas do limbo existencial em que estão presos, e a relação paternal que era metafórica em Encontros e Desencontros ganha ar literal com a entrada de Cleo (Elle Faning, irmã da Dakota), filha de 11 anos de Johnny e que passará alguns dias na luxuosa suíte na qual ele mora. Nesses poucos dias junto de Cleo, Johhny perceberá que ainda existe salvação para si, e que é justamente sua filha, alguém que, de fato, precisa dele, a chave de tudo.

Sofia filma tudo isso sem nenhuma pressa, com pouquíssimos diálogos, abusando do caráter contemplativo de sua câmera. Observamos o dia-a-dia dos dois  calmamente (o videogame, o ping-pong, a patinação no gelo, o violeiro no hotel), sentindo o que eles sentem, sem a necessidade de nenhum diálogo.

É justamente nesse aspecto que o filme pode se tornar chato para alguns, que, acostumados com o cinema dinâmico e explicativo  típico de Hollywood, talvez não tenham paciência para a sutileza de Coppola. Uma pena, pois Um Lugar Qualquer é cinema de primeira qualidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

10 Crítica: Amor Sem Escalas

Up In The Air
EUA , 2009 - 109 min.
Direção:
Jason Reitman
Roteiro:
Jason Reitman e Sheldon Turner
Elenco:
George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga


Jason Reitman apresenta um trabalho oportuno e bem feito.

Um filme pode ser considerado sob dois diferentes pontos de vistas. O ponto de vista ideológico, no qual tenta defende-se algum  tipo de valor ou ideia. E o  ponto de vista objetivo, do qual  todo o valor ideológico  é extraído, e o filme é visto como mero entretenimento.

Algumas obras trazem suas ideologias escancaradas para todos verem. Outras são mais sutis, deixando tudo nas entrelinhas. Amor Sem Escalas faz parte do primeiro grupo. Sua ideologia é bem clara. Trata-se de um alento, uma mensagem de esperança para os americanos que, naquele momento, viviam uma arrasadora crise econômica.

O roteiro se baseia no livro de Walter Kirn, lançado em 2001, mas que se enquadra perfeitamente no cenário econômico da época. Nele conhecemos Ryan Binghan (George Clooney), um executivo que ganha a vida de forma peculiar. Ele trabalha para uma empresa que presta serviços a outras demitindo funcionários em larga escala. Sob o eufemismo de Conselheiro de Transições de Carreira, Ryan passa o ano inteiro viajando, vivendo mais tempo nos hotéis e aeroportos do que em casa.

Mas isso não é um problema para ele. Ryan é um daqueles solteirões convictos e adora levar a vida sem muitos vínculos pessoais – como ele mesmo diz, devemos “esvaziar nossas mochilas” para sermos felizes. No entanto, essa maneira de pensar se transforma à medida que duas mulheres entram na vida dele.

A primeira delas é Alex Goran (Vera Farmiga), uma mulher com um estilo de vida semelhante ao de Ryan. Assim como o personagem de Clooney, ela passa mais tempo em aeroportos do que em casa, e os  encontros só acontecem quando coincide dos dois estarem perto entre uma viagem e outra. A segunda é a jovem Natalie Keener (Anna Kendrick), nova na empresa e criadora de um novo mecanismo de demissões que, para o desespero do protagonista, não exige que viagens sejam feitas: tudo será via internet.

É com a entrada dessas duas na história que Ryan começa a repensar seu moderno estilo de vida, que abre mão de antigos valores, que, segundo a ideologia do filme, são importantes, como o casamento, os amigos e a família. O diretor e co-roteirista Jason Reitman (Obrigado Por Fumar, Juno) trata essa transformação com muita sutileza, fugindo  muito bem dos clichês em que poderia esbarrar - que são vários.

No fim das contas, a mensagem construída por Reitman pode até parecer piegas (apesar do filme nunca chegar a esse ponto) e conservadora, mas é extramente oportuna. Nada melhor para os americanos do que alguém dizendo que os valores da vida moderna, incluindo aí o tão sonhado sucesso profissional, vem bem atrás do carinho dos amigos e da família.

Não se engane com título nacional, Amor Sem Escalas é uma comédia dramática (e não romântica). As atuações são bilhantes (principalmente a de Kendrick). A trilha sonora e o roteiro também.  É verdade que funciona melhor para o público norte-americano, que sofreu e ainda sofre os efeitos da crise econômica, mas  isso não o impede de ser apreciado por qualquer outro público, nem que seja por mero entretenimento.

domingo, 16 de janeiro de 2011

5 O Globo de Ouro 2011

  
Mais do que um  simples "termômetro" do Oscar, prêmio da HFPA acontece hoje.

Hoje (16/01) acontece no hotel Beverly Hilton na Califórnia a 68ª entrega dos Golden Globes - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (entenda mais sobre o prêmio nesse texto).

Além de laurear os melhores do cinema e da televisão, o Globo de Ouro é conhecido também como um dos termômetros do mais importante prêmio do cinema norte-americano: o Oscar. Mas, diferentemente da premiação concecida pelos sindicatos, que possuem muitos votantes em comum com o prêmio da Academia, o Globo de Ouro é votado por jornalistas e funciona não como um indicador direto dos premiados, mas dos indicados.

Os membros da Academia, não tem tempo para assistir a todas as produções cinematográficas do ano (afinal, eles trabalham fazendo cinema, e não assistindo). Cabe, então, aos jornalistas da área - que, em razão do trabalho,  assistem a quase tudo lançado por lá no ano - "selecionar" aquilo que, de fato, vale a pena ser visto.

Nesse sentido, podemos observar que o Globo de Ouro exerce uma influência bem maior do que um mero "termômetro" do Oscar. Influência essa que a jornalista brasileira (e votante) Ana Maria Bahiana definiu muito bem em seu texto de hoje no UOL Cinema ao dizer que  os Golden Globes  tem "a capacidade de desenhar o campo para cada disputa, abrindo espaço para o talento, a qualidade e a originalidade que de outra forma poderia passar despercebido no maior mercado audiovisual do mundo".

Deixando de lado essas questões, o fato é que a cerimônia do Globo de Ouro é muito mais descontraída e divertida de se assistir que a do Oscar, apesar dos esforços desse para tornar  a sua  premiação menos  cansativa e burocrática. Para os Globos desse ano, falando de cinema, os grandes favoritos são A Rede Social e o inglês O Discurso do Rei, nos dramas, e Minhas Mães e Meu Pai, nas comédias.

O apresentador será mais uma vez o comediante britânico Rick Gervais e Robert De Niro é o homenageado da vez. A TNT transmitirá a premiação desde a chegada dos convidados até a entrega dos troféus, a partir das 22h, enquanto o E!, além da chegada dos convidados, a partir das 21h, mostrará, também, a festa pós prêmio, às 2h.

domingo, 9 de janeiro de 2011

3 Crítica: Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited
EUA , 2007 - 91 min.
Direção:
Wes Anderson
Roteiro:
Wes Anderson, Roman Coppola e Jason Schwartzman
Elenco:
Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman


O barco de Zissou dá lugar a um trem,  mas Wes Anderson continua falando de famílias

Lá pelo meio de Viagem A Darjeeling um dos personagens diz: “Gostaria de saber se nos três seríamos amigos na vida real. Não como irmãos, mas como pessoas”. É a prova  cabal que Wes Anderson sabe mesmo o quanto as relações familiares são complicadas. Mas isso não precisava ser provado: o norte-americano sempre gostou de abordar o tema “família” em seus filmes, como fez em Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e em A Vida Marinha com Steve Zissou (2004, leia a crítica). Em Viagem a Darjeling ocorre o mesmo - e tão bem quanto nos filmes anteriores.

Aqui, acompanhamos Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody)  e Jack Whitman (Jason Schwartzman), três irmãos que não se viam desde o enterro do pai, a um ano atrás. A pedido de Francis,  que recentemente sofreu um acidente que quase lhe custou a vida, os três reúnem-se novamente para uma viagem espiritual pela índia, a bordo do trem Darjeeling Limited, onde pretendem recuperar e reforçar os laços fraternos a muito tempo rompidos, além de encontrar a mãe (Anjelica Huston) que vive como missionária.

Se em Zissou Anderson usava o barco Belafonte para vagar lateralmente pelos cômodos com sua câmera, aqui, tal trabalho é feito sobre o Darjeling Limitada. Vagão por vagão, janelinha por janelinha, Anderson passeia com seu jeito todo peculiar de filmar, com enquadramentos simétricos, close-ups, e câmera movimentando-se na direção do personagem que fala.

Por falar em personagens, os daqui continuam tão bons quanto o dos trabalhos passados – ajudados pelo ótimo trabalho do trio principal. Eles não são tão esquisitos quanto os outros, é verdade,  mas mantêm o mesmo poder de fácil identificação que nós faz ver um pouco da nossa família e nós mesmos na tela. Afinal, quem nunca pensou em fugir quando as coisas não iam bem ou ouviu aquela mesma musica pra relembrar  uma ex-namorada? 

Além do longa de 91 minutos, existe um curta metragem de 13 minutos que precede a exibição do filme. Intitulado Hotel Chevalier, o curta retrata o encontro  acontecido antes da viagem entre o personagem de Schwartzman e sua namorada, interpretada por Natalie Portman. Filmado  e escrito pelo próprio Anderson, Hotel Chevalier ajuda a entendermos um pouco mais do personagem e de alguns diálogos do filme vindouro.

Viagem a Darjeeling não é tão "ame-o ou deixe-o" como os outros trabalhos de Wes Anderson. O humor agridoce e os diálogos inusitados permanecem, mas a história não parece se passar em uma realidade alternativa como nos dois antecessores. Um excelente filme que trata de forma um pouco mais realista e menos esquisita (apesar de ainda ser) as famílias disfuncionais que Anderson tanto utiliza em seu cinema. Indicadíssimo.